Arquivo mensal: março 2012

Gençlik Ile Elele (1970) – Mustafa Ozkent Orchestra

Padrão

1. Uskudar ‘a Giderken
2. Burkac Tarlalari
3. Dolana Dolana
4. Karadir Kaslarin
5. Emmioglu
6. Zeytinyagli
7. Silifke
8. Lorke
9. Ayas
10.  Ayas Yollari

Dizem por aí que música boa é pra ser compartilhada né? Ouvi duas vezes esse disco e ele me chocu nos primeiros 30 segundos. Groove pesado e lapidado. Todos os créditos, da apresentação da resenha são do Benedito Cardoso Rapé, vulgo Márcio Bonini, percussionista de uma banda que faz referêcia ao som da Mustafa Ozkent Orchestra, o Mama Gumbo. O som de Gençlik Ile Elele é hipnotizante.
Segue o post do Benedito Cardoso Rapé, no blogue Periecos Brechó:

“Mustafa Ozkent começou sua carreira como músico em 1960 com sua banda de jovens “Teenagers”, localizado em Ancara. Foi chamdo assim, porque nenhum membro foi mais jovem de 19 anos. Mais tarde, ele formou sua própria banda, a “Mustafa Ozkent Orkestrasi” e cortar alguns singlese este LP. O LP “Elif parece ser um trabalho solo de Ozkent, apenas como o seu nome está na capa.

Ozkent era um músico de estúdio exigiu, também. Por exemplo, ele participou da dança do ventre álbum Turkbas Ozel “Alla Turca, – a maneira turca com Ozel”. (Ay-El Records 2982, 1975). Ele também é conhcido como um compositor e arranjador. Seu último LP Dijital gitar “Foi lançado em 2005”. Akin Erkan.

“Gençlik Ile Elele” é um a estranha combinação de A-GO-GO, Funk, Psicodélico, Improvisação solto sem prévias também melodicamente idéias estruturadas, como base em um estilo Folk Anatolian crossover inspirador. Muito “ocidentais”, e ao mesmo tempo exóticos. Uma verdadeira peça rara”

Pedrada!!

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Hot Rats (1969) – Frank Zappa

Padrão

1.Peaches en Regalia
2.Willie the Pimp
3.Son of Mr. Green Genes
4.Little Umbrellas
5.The Gumbo Variations
6.It Must Be a Camel

Hot Rats foi o primeiro lançamento de Frank Zappa após a dissolução do Mothers of Invention. O disco foi gravado em um gravador “caseiro de seis canais”, sendo que alguns afirmam que este é o primeiro disco gravado em seis canais a ser lançado comercialmente. Na época, em 1969,  ainda prevaleciam os gravadores de quatro canais. E que disco!!  Criativo, experimentador, fundindo o jazz, rock e música clássica, Zappa mostra todo seu virtuosismo, esmerilhando na guitarra junto com uma bela banda (bateria, baixo, violino, saxofone, clarinete, flauta, órgão, percussão e vocal somente na segunda faixa), lindos arranjos. Sonzera!! Ouça!

Etiópia (2012) – Sambanzo

Padrão

1. o sino da igrejinha
2. xangô
3. tilanguero
4. capadócia
5. xangô da capadócia
6. etiópia
7. risca-faca

A música instrumental brasileira não para de lançar pedras atrás de pedras. O saxofonista Thiago França, músico muito solicitado e ativo nos últimos tempos, acaba de lançar seu novo trabalho; trata-se do disco Etiópia do projeto SambanzoO projeto teve início em 2009 com a gravação e lançamento de algumas músicas, mas segundo Thiago, o projeto ganhou mais corpo nos últimos tempos. E que corpo! O disco é uma mistura fantástica entre ritmos brasileiros, africanos, latinos, com uma alma jazz ao fundo. Nota-se temas relacionados ao samba de gafieira, gênese do projeto, só que evoluido ao experimentalismo reinante nas melodias sinérgicas do sax de Thiago, nas bases e loucuras da banda que o acompanha, acompanhando o experimentalismo que é uma das novas caras da música instrumental brasileira

O disco é uma evolução da música do próprio Thiago, e essa evolução caminha no mesmo sentido da música instrumental brasileira produzida atualmente, com temas mais simples (sem punhetagem) e muito melhor explorados, deixando ouvidos e execução mais livres pra passear entre notas, timbres,melodias e ideías originais. Os músicos do disco são: Marcelo Cabral (baixo), Kiko Dinucci (guitarra), companheiros inseparáveis de Thiago em outros projetos, Samba Sam (percussão), Welington Moreira “Pimpa” (bateria) e o próprio Thiago França (sax tenor). Todas as composições, execeto as músicas 1 e 2 são do saxofonista, e arte também é de Kiko Dinucci e a produção o disco é de Rodrigo Campos, grande compositor e do próprio Sambanzo.
O disco foi disponibilizado pelo próprio Thiago no site do projeto! Aproveite!!

Trocamos uma ideía com Thiago França, sobre Sambanzo, sua particpação em outros projetos, música instrumental e outras cositas. Se liga!:

Boca Fechada: O que significa Sambanzo? O nome também está na estética das músicas? Você lançou algumas músicas em 2010, já com o nome de Sambanzo. Como as vê e hoje e em relação à Etiópia?

Thiago França: “Sambanzo” é uma palavra que eu acho que criei, é a junção de SAMBA + BANZO. A tradução de banzo é a saudade que os negros (escravos) sentiam da África. Pesquisando no Google, descobri que existe uma cidade em Moçambique chamada Rio Sambanzo Pequeno. Quando criei o Sambanzo, no final de 2009, o samba era muito mais óbvio como matriz estética e melódica. Esse projeto é um desdobramento direto do meu primeiro disco, “Na Gafieira”. De lá pra cá a formação mudou bastante e o som também. Gravamos um primeiro disco, em 2009, que está engavetado por uma série de questões. As quatro faixas do SoundCloud são parte desse disco, que tem um total de 13 faixas. Escolhi essas quatro por achar que tinham mais a ver com o que a proposta se transformou pra lançar esse single.
http://soundcloud.com/thiagosax/sets/sambanzo/

BF: Você participa de diversos projetos com grande repercussão nos últimos tempos, e como músico soma com artistas importantes do cenário atual da música brasileira. Como isso influencia em suas composições e no Sambanzo?

TF: Cara, não sei te dizer. Cada projeto que a gente realiza tem vida própria. O Metá é bem próximo do Sambanzo por ter eu e o Kiko, mas ainda assim, são vidas paralelas dentro de um mesmo universo. O trampo do Romulo não tem nada a ver com o Sambanzo, Criolo,  MarginalS, nem com o “Bahia Fantástica “do Rodrigo Campos. O trampo do Criolo não tem nada a ver com Metá nem com o do Rodrigo. O processo de gravação do disco do Gui Amabis e da CéU, também não tem a ver com o Sambanzo, Metá, Rodrigo, Romulo ou MarginalS. O próprio MarginalS, que tem eu e o Cabral, não tem a ver com o Sambanzo. Entende? De alguma forma, acho que tudo isso conversa, mas estou muito dentro pra conseguir enxergar. Talvez, só seja possível daqui um tempo.

O que influencia o Sambanzo são os caras que tocam comigo, Pimpa, Samba, Cabral e Kiko. Eu componho pro Sambanzo, pensando neles, no jeito de cada um. Não adianta você fazer um músico tocar aquilo que ele não entende ou não sente, vai sair forçado. Então acaba rolando um lance meio “tecla SAP”, foco num tipo de composição, faço as músicas pra elas funcionarem com a nossa sonoridade e com o nosso jeitão de tocar. Não sou colecionador de músicas próprias, componho conforme a minha necessidade de tocar. E sem pressa, só desenvolvo uma idéia quando acho que é realmente boa, que possa acrescentar algo único ao repertório. Deixo as idéias azeitando, às vezes, por anos. Fica na minha cabeça um groove, uma frase, etc… e uma hora sai.

Quando eu me dedicava mais ao choro, era diferente. Pra fazer a noite, você precisa de 40 a 60 músicas. Eu compunha muito, mas tudo dentro do mesmo estilo. É um pouco limitado, os caminhos de harmonia são muito rígidos, clichês, e até as variações são clichês. No fundo, as melodias se parecem muito,  não que falte inspiração, mas todas elas têm o mesmo “sabor” porque a espinha dorsal de cada uma já tá pronta. Saca? Com o Sambanzo, eu fujo disso.

E muitas vezes, o que te impulsiona a compor é algo completamente improvável. Pela correria, distância, ou por falta de envolvimento dum músico com um projeto, é muito difícil conseguir ensaiar aqui em São Paulo. Isso me deixava um pouco frustrado. Além disso, eu ficava com raiva quando um músico esquecia a pasta de partitura e não dava pra tocar algum som. Por isso eu comecei a compor nesse esquema de dois acordes, pra não precisar de partitura nem de ensaio, meio de birra, é só chegar na hora e dizer: “ó, essa aqui é um , a harmonia é dó menor e sol com sétima”. E pronto! E foi assim o primeiro show do Sambanzo com essa formação que ficou, sem ensaio, sem partitura, tudo na hora.

BF: Você mencionou que tocou choro antes de enveredar pra esse tipo de musica mais livre, distante da partitura. Essa é uma característica da musica instrumental que vem sendo feita atualmente. Quando tocava choro percebia algum tipo de preconceito dos músicos do choro em relação a essa musica mais livre? Como você enxerga essa musica instrumental feita atualmente no Brasil?

TF: Quando eu tocava choro, samba e forró, sentia uma resistência grande do pessoal contra qualquer tipo de mudança, por menor que fosse. Esse gêneros são muito formatados, tanto pelo lado musical quanto pelo lugar onde acontecem. E existe demanda (ainda bem!) O que acontece é que, a maioria dos músicos começam a trabalhar muito antes de desenvolver a sensibilidade, sem nenhum questionamento artístico, duma forma bastante mecânica, usando modelos prontos. Não acho que era exatamente um preconceito, no sentido de não gostar de nada além daquilo, muitas vezes parecia preguiça, de “mexer em time que tá ganhando”. Assim, qualquer coisa além do formatado é desnecessário ou esquisito. Eu lembro que quando mostrei o EWI (Eletric Wind Instrument, uma espécie de sax MIDI que eu uso bastante no MarginalS), pro pessoal que tocava comigo, eles rolaram no chão de rir, achavam que eu tinha enlouquecido.

 Há uns dez anos atrás, quando todo mundo resolveu gostar de samba e choro de novo, e muito graças a ascensão do forró na classe média durante os anos 90, bastava tocar. A simples execução da música era um assunto. Hoje em dia, o próprio público já sacou que só isso não dá mais. Nesses dez anos, apareceu um ou outro cara tocando bem de verdade, mas tocando coisas que já foram entendidas há muito tempo, sem grandes contribuições. No balanço geral, os grandes caras continuam sendo o Cartola, o Noel, o Nelson Cavaquinho, Pixinguinha, Jacob… A coisa vai ficando cada vez mais engessada e o público cada vez mais ávido por algo novo, não no sentido consumista da coisa, mas no sentido de que as pessoas querem ser surpreendidas.
A música instrumental mais livre ganha cada vez mais espaço por ter frescor de ritmo, estrutura, melodia, harmonia, timbre, instrumentação, texturas e sobretudo dinâmica – caráter mal explorado em outras vertentes instrumentais. Você vai do silêncio ao caos! Há uma riqueza muito maior de nuances dentro de cada música e ela é muito mais visceral por não estar atrelada a nenhum modelo. Tá muito longe do rigor técnico da academia, tá mais próxima ao sentimento, duma vontade mais legítima de tocar.
A intenção, a postura, de tocar é outra também. Você vê os músicos muito mais envolvidos pelo som, rola um transe coletivo entre quem toca e quem ouve. E a gente se leva menos a sério, tem mais espaço pra experimentação. Coincidentemente, os sons instrumentais mais interessantes são feitos por quem veio do rock, do punk… com formações não tradicionais. Aos poucos, mais gente consegue se desvencilhar dos modelos padronizados de música instrumental, e da idéia de que o bom instrumentista é aquele que consegue tocar mais notas por segundo.
No Sambanzo, a elasticidade dos arranjos me interessa muito porque dá liberdade pra todo mundo criar, há mais espontaneidade, o som ganha vida e se torna único. Quando o músico está livre, é possível extrair o que ele tem de melhor.

Tabla Rock (2011) – Shawn Lee’s Incredible Tabla Band

Padrão

.Let There Be Drums
2.Apache
3.Bongolia
4.Last Bongo in Belgium
5.Dueling Bongos
6.Inna Gadda Da Vida
7.Raunchy ’73
8.Bongo Rock ’73
9.Sing Sing Sing
10.Pipeline

Em maio do ano passado o  produtor e multiinstrumentista Shawn Lee lançou sua versão de “Apache“, um dos breaks de bateria mais sampleados da história,  originalmente dos Incredible Bong Band Nessa sua versão, alguns metais foram substituídos per cítara e, na percussão a tabla vira o batuque principal, dando aquele clima oriental pro som. Acabou gostando tando da história que resolveu refazer o disco inteiro. O som ficou fino! O disco estava programado para ser lançado em janeiro de 2012 mas em setembro de 2011 já estava na rede. Os ouvidos agradecem. Ouça!

Mocumentário (2012) – Fóssil

Padrão

1. Áeropostale
2. Secesso
3. Lençóis
4. Missa Nova
5. Marraquexe
6. O Inventor
7. Trip-Charme
8. Esmeralda

Dia de celebração aqui no Boca Fechada! Mais um tijolada do novo instrumental brasileiro. Semana passada, postamos o disco novo do  Mama Gumbo, com uma entrevista de um dos integrantes. Foi sucesso total! Batemos recorde de visualizações e tanto disco como entrevista geraram uma certa repercussão.
Seguindo na mesma linha, hoje é a vez do disco novo do Fóssil , o Mocumentário, que a própria banda disponibiliza pra download em seu site. Os caras são cearenses e estão radicados em São Paulo há cerca de 4 anos, aumentando a grande comunidade de artistas fodas que residem na Babilônia brasileira. Mocumentário é o quarto registro (possuem uma demo, um EP e outro álbum) da banda e a sonoridade distinta entre eles é perceptível, principalmente entre Insônia {La Movimentacion Musicale Intermezzo Minimal} de 2008 e oMocumentário.

O sincretismo entre imagem e som, nas músicas da banda é notado e enaletecido pelos próprios (já fizeram alguns projetos nesse sentido) e nesse registro conseguimos perceber mais esse diálogo, além de, o Mocumentário ser uma espécie de jornada de vida, uma história. O nome significa um tipo de documentário baseado em histórias fictícias, e com a existência de poemas em algumas músicas, recitados por Elisa Porto e por Vitor Colares, um dos guitarristas, essas histórias ganham vida. São trilhas de contos, que mostram a universalidade do som da banda e também, mesmo com migração para São Paulo, um vínculo maior com suas raízes. Recortes de tempo espaço da urbana São Paulo, representados pelo rock, e também lapsos e jornadas até ritmos mais brasileiros, gênese do grupo.

Nessa nova fase, a formação do Fóssil é: Eric Barbosa (guitarra), Vitor Colares (guitarra e violão de nylon), Vítor Blhum (bateria), Rodrigo Colares (escaleta, piano e synth) e  Klaus Sena (baixo) . Mocumentário foi gravado no estúdio Cambuci Roots e produzido pela própria banda, além de contar com uma bela arte gráfica por Nelson Oliveira e Peixaria, coletivo de artes visuais de cearenses e mineiros também radicados em São Paulo.
Pra mais informações sobre o disco, acesse o blog do Fóssil e pra ouvir o Mocumentário, clique aqui!

Bongo Rock (1973) – Incredible Bongo Band

Padrão

1.Let There Be Drums
2.Apache
3.Bongolia
4.Last Bongo in Belgium
5.Dueling Bongos
6.In-A-Gadda-Da-Vida
7.Raunchy ’73
8.Bongo Rock ’73

Incredible Bongo Band foi um projeto iniciado em 1972 por Michael Viner (executivo da MGM Records) e que chegou a lançar dois álbuns. O que temos aqui é o primeiro, “Bongo Rock” de 1973, grooves pesados, psicodelia, som de primeira! O disco não fez muito sucesso na época do lançamento, mantendo-se na obscuridade até o fim dos anos 70, quando pioneiros do hip hop como os Dj’s Kool Herc e Grand Master Flash samplearam a música Apache. A partir daí, essa música simplesmente se tornou uma das mais sampleadas do mundo inteiro e o disco começou a fazer sucesso. Som de primeira qualidade! Confira!

Ytcha – Mama Gumbo (2012)

Padrão


1. Fim do Mundo (Parte 1)
2. Mouse Hop
3. Mesmerizador
4. Borborelo
5. Fim do Mundo (Parte 2)
6. Peter Gunn
7. Fim do Mundo (Parte 3)
8. Flamingo Jazz
9. Horseypig Cymbals Orchestra
10. Paulera no Gato
11. Fim do Mundo (Parte 4)

Como mencionado em um dos últimos post’s, hoje é dia de estréias. Vamos lançar por aqui o novo disco da banda paulistana Mama Gumbo e também iniciar um nova sessão aqui no blog: uma entrevista, pra além de nós, os próprios músicos interpretarem sua obra e bater um papo sobre música e outras cositas.

Ytcha” foi lançado nos últimos dias pela própria banda e disponibilizado gratuitamente pra download. O disco soa o mais maduro da discografia do Mama e  não só per ser o mais recente, mas principalmete por sua sonoridade. Se ouvirmos o primeiro disco do grupo: Mama Gumbo, de 2004, percebemos que “Ytcha” está mais próximo do disco que deu o pontapé inicial da discografia da banda, do que do anterior ao lançamento, o Na Garagem dos Cães de 2011. E isso não soa como um retrocesso, parece mais um aperfeiçoamento da ideía inicial, como se a banda voltasse no tempo e tocasse o álbum de outra forma, com toda bagagem adquirida nos quase 10 anos de história.

“Ytcha” foi gravado nos estúdios Menino Muquito em São Paulo, mixado e masterizado por Dharma Samu e produzido pela própria banda. Os músicos do disco são: Alex Cruz (piano, orgão, sinteizador e sax tenor), Luís Jesus (baixo e baixo fuzz), Márcio Bononi (percussão) e Thiago Horácio (bateria). Particparam também os convidados: John Sales (sax alto), Clayton Martin (pratos e grunhidos), Davilym Dourado (guitarra) e João Paulo (guitarra, teclados, desconstruões e aleatoridades). A grande mistura setentista e lisérgica está mais madura do que nunca. Se liga na pedra!


Pra mais uma estréia, segue a entrevista na íntegra com o tecladista da banda Alex Cruz. Nela, ele fala um pouco do grupo, do disco e faz uma análise de como enxerga a música independente atual e também sobre a nova cena instrumental brasileira. Vale a pena conferir!

Boca Fechada: O que é Yttcha? Por que e a escolha pelo nome?

Alex Cruz: Ytcha é um disco conceitual… a palavra é um estado de espírito, um grito de guerra, um conceito que permeia todo o álbum… mas é algo livre que vc pode adaptar pra sua história, seus sentimentos, sua interpretação das músicas e de todo o álbum… gostamos de dar nomes mais livres para as músicas, para que o ouvinte possa criar uma interpretação diversa, baseada nas suas próprias experiências… acho que essa possibilidade de criação conjunta com o ouvinte é um dos grandes lances da música instrumental.

BF: Ouvindo o primeiro disco de vocês de 2004 e Ytcha, percebemos algumas similaridades e diferenças. O experimentalismo está nos dois, mas ficou perceptível que as idéias estão mais no lugar. Isso é escolha ou rolou naturalmente?

AC: É incrível, mas Ytcha é o disco que mais se aproxima do primeiro álbum de 2004… parece quevoltamos para muitas idéias iniciais, mas de um modo mais coerente e organizado, como se fosse um caminho elíptico, fazemos a volta e chegamos perto do que era mas seguindo para um outro caminho. Quando terminamos o Flaming Salt e demos início ao Mama Gumbo não sabíamos exatamente o que queríamos, esse lance de nova música instrumental era novo e ninguém ligava pra isso… tínhamos um sentimento do que iríamos fazer e tínhamos um modo operandi meio pronto, mas ainda não éramos tão conscientes disso, pode se dizer que não tínhamos o conhecimento pra seguir pelo caminho que estávamos criando…. com o tempo, com a entrada de novos integrantes, de novas experimentações a coisa foi ficando mais clara e acabei sendo uma espécie de guardião dessa idéia inicial, que apesar das mudanças sempre esteve presente, foi o que manteve o Mama ativo durante esse tempo. Hoje e com esse disco posso dizer que estamos plenamente maduros e conscientes de todos os nossos processos, isso tem a ver com as experiências acumuladas e também com os integrantes que estão nessa formação, agora temos idéias muito próximas e com uma ligação muito forte e clara do que o Mama Gumbo é. Além do mais era impossível gravar um disco do porte do Ytcha naquela época, isso do ponto de vista técnico, de instrumentação, de produção… muitas coisas mudaram no mundo e aprendemos bastante… esse não é um disco de iniciante, é algo pensado e muito bem organizado, onde conseguimos chegar num consenso entre técnica,
produção e concepção… provavelmente é o nosso melhor trabalho até agora, pelo menos do ponto de vista da expressividade de idéias… chegamos exatamente no ponto que queríamos e isso é muito difícil de conseguir.

BF:  O Mama Gumbo teve algumas formações ao longo de sua história. Como você acha que isso influenciou no som da banda?

AC: Acho que foi positivo pro Mama, a cada formação tivemos que trabalhar com novas idéias e possibilidades, lidar com músicos de diferentes vertentes e vivências. A cada integrante que entra o som muda, por que o cara acaba trazendo toda sua bagagem e isso influência no som, de um é lado bom por que temos que trabalhar com novas idéias, novas experimentações e no fim, todos aprendemos muito uns com os outros. O Mama é a soma de todas essas vontades coletivas, mas guiadas por uma idéia original que não pode ser perdida. Às vezes experimentamos mais e ficamos um pouco mais longe dessa idéia, mas depois voltamos a ela e assim vamos criando muitas possibilidades… cada disco do Mama é de um jeito, mas se vc perceber existe uma ligação muito forte entre eles, uma espécie de linha condutora, uma maneira muito própria de fazer música.

BF: A banda é uma das bandas pioneiras dessa nova cena instrumental e sempre foi independente ao extremo. Como você enxerga o cenário independente atualmente e essa nova música instrumental?

AC: É incrível ver como tudo cresceu… em 1999, 2000, fazer música instrumental independente era loucura, não havia lugares pra tocar , não havia que consumisse esse tipo de som. Acho que com a abertura que a internet trouxe, facilitando o acesso a todo o tipo de música, acabou abrindo a cabeça das pessoas (e isso não só para a música intrumental). Isso só prova que com acesso as pessoas podem gostar de coisas que antes se achava serem anti comerciais… ao meu ver a música instrumental foi a que mais cresceu com essa abertura e com essa formação de público independente que vemos agora (também decorrente da internet e do acesso a diferentes formas de cultura). Isso é novo e pode se ver claramente o ínício desse novo público, dessas novas bandas que começaram por volta de 2004 mais ou menos. É uma outra mentalidade e isso acabou culminando numa outra maneira de organização, mais ativa que a dos anos 90, onde as pessoas começaram a explorar mais as possibilidades da criação desse mercado (uma vez que o grande mercado estava ruindo). Os grupos também mudaram, se tornaram mais “profissionais “e podemos ver o quão prolífica se tornou a produção musical desde então. As bandas instrumentais matam a pau, todos os dias vemos uma banda fazendo um puta som, um puta disco, enfim, a cena instrumental cresceu e está produzindo pérolas que não perdem em qualidade pra nenhum lugar do mundo. No entanto a cena como um todo não me agrada e acho que estamos perdendo a possibilidade de criar algo novo que valha a pena, e o pior, talvez não se possa remediar mais pra frente, agora estamos com a faca e o queijo na mão mas isso pode não durar muito.
O Brasil nunca conseguiu criar uma cena independente de verdade (não no sentido da criação musical, sempre houveram ótimas bandas independentes), ninguém, nenhuma gravadora investiu na criação desse mercado que poderia ser um quinhão milionário, onde poderia haver pouco investimento e um retorno gradual, mas substancioso… mas isso nunca interessou as grandes gravadoras, eles querem apenas lucro alto e imediato. Coube a organizações menores, coletivos, ongs e afins a exploração desse campo tão fecundo. Esses grupos batalharam bastante e muita coisa melhorou em termos de divulgação, de espaço para apresentações e etc, no entanto em algum momento isso degringolou… acabou se criando um processo de exclusão ao invés do contrário, tudo passou a ser politicagem, já que se percebeu que pode se ganhar muita grana nesse processo. A maioria dos festivais não abrem processo seletivo (não há como mandar seu material por que eles não estão interessados em descobrir bandas), no único site criado pra suprir esse problema não existe uma ética e vários aproveitadores já estão agindo por lá, cobrando venda de ingressos para se poder tocar, taxa para inscrição de festivais que não se sabe se vão acontecer… no Sesc, lugar que tem um estrutura e rola uma grana existe um fosso entre o profissionalismo e o amadorismo (não há espaço pra bandas que estão se profissionalizando), e como rola dinheiro a possibilidade de inserção é bem difícil. Não há mídia que fale sobre as bandas independentes e qusase nenhum dj e nenhuma rádio toca esse tipo de música (exceto os podcasts, rádios independentes e tal), nenhum crítico se interessa aponto de escrever sobre (a não ser em pequenas notas), isso tudo por que o dinheiro não está passando por ali. Os músicos continuam sendo explorados, agora não apenas pelos donos de bar, mas por alguns coletivos que são mestres de angariar verba mas não de repassar, o descaso reina em todos os meios e em mais de um festival dito independente já vi músicos e bandas serem destratados pela produção do festival que só pensa em puxar o saco dos grandes ou médios que foram chamados pra tocar e que são (com sua imagem) o que os ajudam a captar a verba, verba essa que é gigantescamente mal dividida (um artista médio ganha 12.000, as bandas independentes que são o motivo do festival ganham 500, as vezes 1000, isso quando ganham, por que o normal não é pagar). Existe um pensamento de escambo que pode ser bom num sentido mais no final avilta o músico que vive disso e precisa ganhar pelo seu trabalho.
Resumindo eu acho que muitas coisas boas foram criadas e houve uma melhora nas condições desde o ínício dessa nova cena, mas agora muitas coisas estão deixando a coisa ruim a tal ponto que tem gente começando a sentir saudade de uma outra época anterior a isso tudo. O músico precisa ser tratado com dignidade e o primeiro passo e dar condições pra ele poder viver da sua arte. É importante pensar que o principal é a música e as pessoas que a criam e a reproduzem, temos a possibilidade de mudar muita coisa e transformar o mercado mas não acredito que seja da maneira que vem ocorrendo. A politicagem reina a tal ponto que é mais importante gastar muitos mil reais numa semana de discussões sobre a música independente do que pagar o cachê de 500 paus pra uma banda e que está atrasado em mais de 6 meses. Na verdade essa é uma longa discussão e seria necessário muito mais espaço pra dissecar tudo. Pra terminar posso dizer que o m=Mama sempre andou sozinho, mas isso por que as diversas parcerias foram sempre nocivas e visavam apenas a exploração do grupo… vamos continuar fazendo nossa arte e tocando por aí, se profissionalizando cada vez e fazendo novas parcerias (não somos fechados, pelo contrário, estamos sempre em busca de novos parceiros), por que isso é o que queremos. Acreditamos acima de tudo na música e na dignidade do artista, mas parece que dentro de todo esse processo sejamos um dos poucos a acreditar nisso.

BF:  Quais os planos com o disco lançado?

AC: Em foi lançado apenas virtualmente, a próxima etapa é angariar fundos pra poder prensar oálbum. Isso por que é mais necessário e importante a embalagem do que o conteúdo hoje em dia (não deveria ser assim já que todo mundo baixa os discos e tal, mas…). Estamos atrás de parcerias que possam nos ajudar com isso, desde a doação, a venda antecipada de cds até a possibilidade de apresentação para podermos levantar a quantia necessária. Assim que o disco sair queremos tocar em outras cidades e tentar alcançar um público maior, divulgar o trabalho e circular pelo Brasil…