Arquivo da categoria: Post-Rock

HAB (2013) – HAB

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capa hab

1. Bugio
2. Conduz
3. Cratera
4. Suco
5. Em Tempo
6. Três Lados

Tô pra postar esse álbum desde que, infelizmente, tive que dar um tempo no blogue, no finzinho do ano passado. Pelos contratempos bons e ruins da vida, fiquei impossibiltado e deixei passsar (por um tempoi) esse belo disco, já que o lançamento do mesmo coincidiu em quando a atividade por aqui diminui. O HAB, projeto encabeçado pelo guitarrista Guilherme Valério, iniciou sua história no ano passado, cheguei a ver um dos primeiros shows, no Mundo Pensante, espaço na cidade de São Paulo, e que naquela noite abrigou um show intenso, com bons temas sendo executados por um time de respeito. Além de Valério, já atuante na música independente, a banda tem Maurício Takara (ao vivo Thiago Babalu) e Marcos Gerez ambos do Hurtmold, e na outra guitarra, Marco Nalesso, há tempos com trabalho na música instrumental, principalmente via Marco Nalesso e a Fundação (antes Marco Nalesso Big Band).

Nesse show disseram estar em processo de produção do primeiro disco, o próprio. Senti pela apresentação que o disco não deixaria a desejar, como fez. São  seis faixas que já dizem muito, principalmente pelo preciso diálogo das guitarras, seguro pela cozinha concisa de Takara e Gerez. Os timbres chamam atenção à primeira audiçao, e foram muito bem escolhidos, soando com precisão junto às dissonâncias que aparecem em muitos momentos na linhas de guitarra, tornando a sonoridade uma mistura de pós rock e pós punk com melodias e ritmos da música brasileira. Sempre que ouço o disco lembro da extinta banda paulistana Veracidad, existente entre fins da década de 90 e início dos dois mil, que fazia um som com influências semelhantes ao HAB.

Pra ouvir o disco, clique aqui!

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Umbra (2013) – Herod Layne

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cover1. Penumbra
2. Collapse
3. Limbo
4. Blinder
5. Lumia
6. Silêncio
7. Antumbra
8. Umbra

Trazendo por aqui mais um lançamento da nova safra da música instrumental brasileira.  Já comentei anteriormente que o momento do gênero é muito massa no Brasil. Bandas novas surgem de baciada, discos são gravados com qualidade, e estilos musicais distintos dentro da música instrumental dão o tom do momento. Nesse contexto, ainda na primeira década do século XXI, na Babilônia pauista surgiu o Herod Layne. De início um trio, e posteriormente um quarteto, os caras acabam de lançar Umbra,  novo álbum que conta com diversas participações, maturou-se quase dois anos pra sair do forno e teve um belíssimo trabalho de produção.

A Herod Layne lançou em 2010 o disco Absentia, e de lá pra cá, além de diversos shows pelo Brasil, trabalharam na produção de Umbra.  O período que ficaram trabalhando no disco, rendeu um belo e formoso fruto. Umbra é um disco muito maduro. Calcado no post rock, pos metal, drone e noise, as experimentações do quarteto estão concisas e as faixas dão uma noção narrativa ao disco. As 8 faixas de Umbra estão muito bem  amarradas à temas soturnos e pesados que parecem nos levar aos lados e momentos sombrios de toda existência.

O disco foi disponiblizado na semana passada pra download, e você pode ouvi-lo, clicando aqui!

Pra coroar o lançamento de Umbra, trocamos uma idéia (via email) com o Herod Layne. Segue o papo:

Boca Fechada: Como foi o processo de produção de Umbra? Desde a idéia do crowd-funding, até o lançamento no ultimo dia 5?
Herod Layne: Umbra teve uma gestação de dois anos e alguns meses, se considerarmos as primeiras idéias e riffs criados. Na verdade, esse tempo longo se deve ao fato que, num primeiro momento, concebemos o álbum da maneira tradicional que sempre fizemos com os outros discos, e chegamos a um ponto de maturação suficiente para gravação da pré. Neste momento, criamos, desenvolvemos e disponibilizamos nossa própria plataforma de crowd-funding, o Buzzker, que nos trouxe bom retorno financeiro para seguirmos com um projeto ainda mais ousado: decidimos então não lançar o material gravado e envolver um produtor no trabalho. O Joaquim Prado, que já era nosso amigo de longas datas, surgiu na hora exata para topar esse convite. Aí foi quando de fato o Umbra que viria a ser lançado começou a tomar forma. O Joca desconstruiu não só os arranjos e as composições, mas a própria banda e seus equipamentos, e começou um processo minucioso de estudo e reconstrução com base no conceito do álbum. Foram levadas em consideração as influências musicais de cada membro, seus gostos em relação a timbragem e melodias, sua aptidão e conforto técnico com o instrumento e apetrechos… A banda se renovou e ressurgiu mais poderosa e pesada, quer seja em equipamentos ou idéias. Quando fomos para o estúdio gravar, os detalhes já vinham sendo discutidos e ensaiados havia tanto tempo que a gravação durou apenas 4 dias.

BF: Uma das diferenças de Absentia para o Umbra foi a entrada de Lippaus na guitarra. Além dessa mudança (ganhando mais em sonoridade e experimentações) quais outras modificações vocês percebem de lá pra cá?
HL: A entrada de um quarto elemento na banda era extremamente aguardada, pois a limitação de um trio, especialmente em apresentações ao vivo, é notória para bandas com um som pesado e carregado em arranjos como o nosso. E o Lippaus foi muito importante também na criação das músicas, complementando as composições com linhas melódicas inéditas para a banda ou mesmo trazendo das suas influências algumas idéias totalmente novas. O Joca foi outro fator transformador do grupo, pois o trabalho de coaching individual que aplicou em nós foi decisivo para moldar a pegada da nova Herod. Outra diferença foi o conceito fechado e claro para todos, sempre encarado como guia e pano de fundo para todo esse projeto, como se a cada momento soubéssemos exatamente o propósito de cada música dentro do conjunto da obra. Alguns veículos têm apontado que deixamos velhas influências de lado, mas não é verdade, pois influências apenas se somaram ao longo destes dois anos, nada foi subtraído, e hoje a Herod é uma banda intelectualmente e musicalmente muito mais madura.
Herod 02

BF: Me chamou atenção a participação dos vocais de Jair Naves, em Limbo e de Felipe Albuquerque em Blinder. Essas músicas originalmente já tinham a ideia de conter letras? Como escolheram Jair e Felipe?
HL: A idéia de convites inusitados sempre nos agradou, e quando compusemos “Limbo”, percebemos que a música era torta e esquizofrênica o suficiente para comportar os vocais do Jair. No final de 2011, abrimos um show dele em São Paulo, e ficamos maravilhados quando ele discursou ao público sobre a “coragem da Herod (então ainda Layne) em fazer sua música torta e incompreendida, por puro amor à sua Arte”. Ao final do show, agradecemos a ele e retribuímos com o convite para gravar os vocais. Mais de um ano depois, já na etapa final de gravação do disco em 2013, marcamos um ensaio para discutir o trabalho. Trocamos algumas idéias de referências, e o Elson indicou a ele um conto do Edgar Allan Poe chamado “O Poço e o Pêndulo”. Já na primeira tentativa de ensaio, a química rolou, e a banda era só sorrisos quando ouvimos o primeiro berro do Jair – o Sacha chegou a largar a guitarra para filmar aquele momento memorável! E no dia da gravação, dos três takes que fizemos, o que valeu foi o último, quando o Jair Naves já estava sem voz, rouco, urrando suas letras.
Com o Filipe Albuquerque foi um processo um pouco diferente, mas tão brilhante quanto o do Jair. A sua banda, Duelectrum, dividiu muitas vezes o palco (e os integrantes) com a Herod ao longo das suas histórias. Quando “Blinder” foi composta, a idéia seria que o Sacha mesmo cantasse as letras que escreveu. Porém, com a sonoridade que a música tomou após a reforma do Joca, percebemos o quanto o timbre shoegazer do Filipe caberia na música. Entregamos o texto para ele já com uma sugestão de linha vocal, mas ele a modificou completamente e tão apropriadamente que tornou a voz o principal elemento da música e enriqueceu demais o repertório do álbum.

BF: Lendo os comentários de uma das divulgações do Umbra, li uma coisa que me intrigou. Uma pessoa disse: “pena vocês terem nascido no país errado”. O que acham dessa afirmação e como é fazer música no Brasil no estilo das composições de vocês?
HL: Não podemos concordar que tenhamos nascido no país errado, afinal estamos indo muito bem na divulgação do nosso trabalho e a receptividade do público tem nos surpreendido positivamente. No entanto, o Brasil é indiscutivelmente um país de tradições musicais muito fortes, com vários estilos populares bem definidos, além de sofrer do monopólio das mídias de mainstream. Fazer música “experimental” neste cenário é um desafio muito maior do que seria submetê-la a um público mais aberto a novos sons, com cultura musical menos constituída. Quando fizemos uma turnê no Canadá, em 2009, pudemos perceber este fenômeno de perto já no momento em que agendamos os shows: bastaram poucos e-mails e tínhamos cinco apresentações garantidas em quatro cidades canadenses. O interesse e o conhecimento musical da platéia também foi muito marcante em nossas performances.
Lidar com as dificuldades no país dá um sabor especial ao nosso trabalho, e procuramos ver a coisa de uma ótica otimista: se levarmos meras 100 pessoas a um show da Herod, teremos a certeza que serão 100 espectadores extremamente interessados e conhecedores da nossa música. E o segredo para alcançar uma crescente exposição tem sido, indubitavelmente, a união e colaboração das bandas independentes para a criação e desenvolvimento de uma cena que vem tomando proporções muito animadoras.
Herod 04

BF: Vocês estão totalmente ligados ao selo Sinewave. Como enxergam o momento atual da música independente brasileira e acham que existe uma cena música instrumental no Brasil?
HL: Acho difícil definir uma cena instrumental no Brasil. Acho que acabaria tentando juntar bandas de diferentes estilos somente pelo fato de não terem vocalistas. É um critério frágil. Talvez dê pra teorizar uma cena experimental no Brasil, juntando bandas que procuram quebrar padrões, independente de terem vocais ou não. Nesse sentido, dá pra dizer que existe sim, e a Sinewave meio que tenta jogar uma luz e indicar um caminho. Quanto à música independente em geral, acho que o momento é parecido com o que rola no resto do mundo – um desequilíbrio de oferta muito maior que a demanda. Tem muito mais bandas do que público interessado. Isso torna a sobrevivência de uma banda quase impossível sem um bom emprego bancando as despesas. Mas artisticamente falando, o momento é ótimo, e a quantidade de ótimas bandas sempre aumenta.

Horizonte#1 (2013) – Aos Maníacos Símeis

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cover1. NNO
2. NO
3. ONO
4. Off-Off #1
5. OSO
6. SO
7. SSO

Desde a virada do milënio e a maior democratização no acesso aos bens de produção em música,  em todos os cantos do mundo, e claro, do Brasil, surgem artistas e bandas dos mais diversos gêneros. Com a música instrumental não é diferente. Nesses 13 anos de século XXI, muitas bandas do Brasil todo surgiram para o cenário, e uma das cidades que mais se destaca nesse gênero é São Carlos, no interior de São Paulo. Localizada a cerca de 240km da capital, a cidade é marcada por ter originado ou hospedado diversas bandas importantes da música instrumental brasileira mais recente: Pantomine Jazz, The Dead Rocks, Malditas Ovelhas! e Aeromoças e Tenistas Russas, são bons exemplos.

Cria desse movimento interessante feito na cidade, o Aos Maníacos Símeis, na ativa desde 2010, lançou a pouco seu primeiro registro: o disco Horizonte#1, pelo recém criado selo Caesar Simia Records. O registro é um bootleg divido em 7 faixas e gravado ao vivo.  É como uma fotografia do grupo, já que as faixas são de total improviso. O Aos Maníacos Símeis, mais que uma banda é um coletivo de improviso, e as “músicas”, assim como seu show, dificilmente serão ouvidos novamente. Os improvisos de Horizonte#1 indicam os elementos que compõe o laboratório símio maníaco: post rock, noise e experimentações lo-fi com timbres, pedais e osciladores.
Interessante trabalho desse coletivo instrumental, que podemos ouvir, clicando aqui!

The Future Is Now_EP (2012) – toe

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Capa1. Run For Word
2. Tsuki Kake feat. Aco
3. Ordinary Days Ep Ver.
4. The Future Now

Os japoneses tem o hábito de ler de trás para frente,- a tal leitura oriental, que ocorre principalmemte nos mangás. Fazendo (sem querer) uma homenagem à esse hábito da cultura nipônica, trazemos pela primeira vez um disco da banda toe: o EP lançado ano passado e denominado The Future Is Now. A presença do toe por essas linhas se inicia de trás pra frente pois, esse é o ultimo trabalho lançado pelos caras. O EP contém 4 músicas – sendo 3 grandes pedradas instrumentais e mais outra “Tsuki Kake”, com participação da cantora Aco – pedimos aqui uma licença poética à música instrumental.

O toe tem mais de 10 anos de estrada e vários discos gravados. A música do grupo é o rock instrumental nascido na virada do século XX para o XXI, e comumente chamado de post rock.  Rótulos à parte, a música dos potentes japoneses é extremamente pontual, passeando e experimentando diversos temas e paisagens em suas composições. As linhas de guitarra em muitas vezes lembram a batida criada pelos afrosambas de Baden Powell, acompanhados de um baixo marcante, uma bateria insana com tempos totalmente quebrados e melodias sintetizadas de fazer chorar.
O futuro do toe chegou antes e se move agora. Pra nós, ecoa pela primeira vez e ao futuro (de trás pra frente).
Pra ouvir o disco, clique aqui!

Serenata (2012) – Bemônio

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Capa

1. Ose
2. Masterma
3. Ifriti
4. Cimeries
5. Barbatos
6. Amon

Bemômio é um duo carioca formado por Paulo Caetano e Gustavo Matos. Foi formado no início de 2012 e já lançou vários trabalhos, entre eles,  o álbum Serenata, lançado ano passado e com de composições dos dois integrantes. São 6 composições  que tem como caracterítica principal a experimentação. Os estilos percebidos pelo duo são o dark noise, o dark ambient, e o drone (estilo musical minimalista, que enfatiza o uso de sons sustentados ou repetidos); produzidos por sintetizadores ligados a pedaleiras e pedais de guitarra, causando um “bafo sonoro” em suas ambiências, tudo isso acompanhado por uma bateria que remete ao heavy metal.

O Bemônio é mais outra banda da novíssima música instrumental carioca, cujo outros grupos são o Chinese Cookie Poets e Sobre Máquina, que em comum com o Bemônio  tem a característica de causar um incômodo sonoro ao ouvinte, causando a ele, segundo Paulo Caetano, a sensação de estar em algum “ritual, ou alguma espécie de culto”. Esse ano, o duo lançou um EP chamado Opscurum, organizado em uma faixa só de nove interlúdios concebida a partir de um ‘sonho nonsense‘ de Paulo Caetano”
Em breve o trabalho novo deve dar as caras por aqui, mas para já termos uma boa inquietação, ouçamos Serenata, clicando aqui!

A + B (2012) – Quarto Sensorial

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Quarto Sensorial - A + B (Cover)1. Biotônico Ferreira
2. Inferno Astral
3. Voo Livre (parte 1)
4. Voo Livre (parte 2)
5. 08’59 am
6. La Gambiarra
7. Samba Cafeinado

Na estrada desde 2007, os gaúchos do Quarto Sensorial lançaram ano passado seu primeiro disco cheio: A + B, depois do EP de estréia denominado “Quarto Sensorial“, lançado em setembro de 2009. O disco foi gravado e produzido em Porto Alegre, cidade com importantes bandas instrumentais como a já extinta Pata de Elefante e o Reverba Trio, além de outros belos trabalhos instrumentais como o de Marcelo Armani. Essa grande leva de artistas gaúchos confirma o que Renan Ruiz disse na entrevista com a banda Catexia feita na semana passada: ‘é difícl algum estado brasileiro não ter uma banda ótima de música instrumental”. Fato!

A + B, como os próprios músicos dizem é um laboratório de ritmos e experimentações, pois o power trio formado por Bruno Vargas (baixo), Carlos Ferreira (guitarra, violão e programações) e Martin Estevez (bateria e percussão) mistura com muita criatividade o jazz/fusion latino com passagens minimalistas e rock progressivo, e ritmos brasileiros como o samba com o post rock, criando paisagens sonoras que levam da tranquilidade à intensidade dentro da mesma composição. Mais uma prova do belo momento que a música instrumental brasileira vive.
Pra ouvir A + B, clique aqui!

A Voz do Brucutu (2013) – Catexia

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capa1. Inferno
2. A Ressureição
3. Marta

Temos a satisfação imensa em mais uma vez divulgar um disco da nova safra da música instrumental brasileira, que não para de lançar bandas e trabalhos ótimos. Dessa vez, o lançamento vem da cidade paulista – quase mineira – de Franca: a banda Catexia. Formada sem muitas pretensões na virada de 2011 pra 2012, e com integrantes que já possuem experiências mútuas com música ou não, acabam de disponibilizar pra download seu primeiro trabalho, o EP A Voz do Brucutu, que veem com 3 músicas compostas ainda na fase inicial e de experimentação da banda, quando muitas composições eram apenas anestésico pra vida do guitarrista Lucas Misu.

A banda tem origem parecida com muitas outras da nova cena instrumental (entre elas, A Atmosfera Lunar, também de Franca e instrumental e onde tocam alguns integrantes do Catexia): a universidade, onde várias cabeças inquietas se encontram e fazem a convivência extrapolar o academicismo e futulidade comum no meio, transformando-a em arte, e das boas! A música do Catexia tem o post rock como mola propulsora e o faz com maestria, sinalizando ao gênero uma direção mais éterea. O EP A Voz do Brucutu, acaba de ser lançado e disponibilizado pra download no próprio saite dos caras. A produção ficou por conta de Peu Ribeiro, figura importante da cena independente de Sorocaba/SP, cidade de origem de alguns músicos da banda.
Pra ouvir o disco, clique aqui!

contracapa

Fizemos também uma entrevista com Renan Ruiz, um dos ingrantes da banda, sobre o projeto, gravaçõe e a música instrumental. Se liga:

Boca Fechada: Como a banda foi formada? Qual a influência da experiência com A Atmosfera Lunar para o Catexia?
Catexia: A origem da Catexia está totalmente subsidiada por uma fase diferente que se passava na vida do nosso guitarrista: Lucas Misu. Era final de 2011, e na minha percepção, eu acredito que o Lucas passava por um momento bem distinto em toda sua vida, no quesito sociabilidade. A gente mora junto a uns 4 anos e nessa época ele ficava trancado horas (muitas horas mesmo) dentro do quarto dele apenas fazendo riffs no violão pra tentar botar pra fora os demônios que sentia (e que provavelmente o incomodavam). Pra chegar até meu quarto eu passava pela janela do quarto dele e durante meses enquanto eu caminhava pra ir dormir (ou ir até o quarto fazer qualquer coisa), sempre ouvia os riffs que ele estava criando. O que eu acho interessante dessa história toda é que o Lucas nunca tinha feito aula de guitarra, nem nada desse tipo. A busca pelas notas, nessa época, eu acredito que funcionasse como uma espécie de válvula de escape pro não surto social. Dessa época surgiram músicas como “Inferno” e “Marta” que estão no EP.
Até que um dia, depois de eu tanto ouvir os riffs, eu convidei ele pra tocar comigo e aí tudo começou a criar mais forma. Começamos a ensaiar só nós dois mesmo e por alguns meses (final de 2011, começo de 2012) foi assim: apenas uma guitarra e bateria. O Alex (baixista) passou na UNESP, e eu o convidei pra morar conosco na nossa republica pois já o conhecia da nossa cidade natal: Sorocaba. O Alex na verdade é baterista (muito melhor do que eu, aliás) e ele não tinha escapatória morando na mesma casa: ficava ouvindo os ensaios que eu fazia com o Lucas. Até que um dia enquanto a gente ensaiava, ele entrou no nosso estúdio Lo-Fi, pegou um baixo que ali estava e começou a tocar junto com a música. Foi lindo demais pra gente e naquele mesmo momento intimamos ele pra tocar conosco. A entrada do Carlos foi quase a mesma coisa, ele chegava do trabalho e nos ouvia ensaiando. Dai até a entrada dele na banda foi apenas um passo.
Agora, quanto a influência da A Atmosfera Lunar na Catexia, eu creio que uma das únicas (senão a única) influência/característica é que até janeiro de 2013, nós todos morávamos juntos. Então essas músicas também são frutos da nossa convivência cotidiana, de conseguir compreender o outro, se escutar, se entender, passar por dificuldades juntos. Pra mim tocar junto sempre foi muito mais do que dividir a técnica da música por sí mesma. Assim, nós dividimos tudo durante 3 anos: casa, cama comida, brigas, espaços, ideias, etc. E foi uma época gloriosa na vida de todos nós, tenho certeza. (A Atmosfera Lunar existe ainda, estamos compondo material novo).

BF: Como foi/é o processo de composição de vocês? Como o disco foi produzido?
C: Nosso processo de composição tem várias facetas. Mas se for pra ressaltar um aspecto, eu diria a repetição. No sentido de que tentamos tocar/ensaiar bastante juntos pra conseguir entrosar (nós mesmo e o som como resultado) de uma forma legal. O que acontece na maioria dos casos é alguém que aparece com alguma ideia/riff e a partir da apresentação para os outros membros, todos começam um processo de lapidação dessa estrutura musical. Esse processo de lapidação consiste em dar mais ideias pessoais para as estruturas da música (todo mundo opinando feito lôco), assim como também tocar bastante junto pra que a novas soluções saiam coletivamente. Devido a maneira como surgiu a banda a maioria das músicas que apresentamos ao vivo hoje são do Lucas, mas já temos apresentado músicas do Alex também, e estamos ensaiando novas do Carlos. Além dessas composições que a gente vai reestruturando, também fazemos muitas ‘jam session’. No show que estamos apresentando não tocamos muitas músicas que fizemos em ‘jam session’ mas eu acredito que elas são primordiais pra nossa relação enquanto músicos. A questão do desenvolvimento da música, do entrosamento: um olhar ali pra outro integrante por um milésimo de segundo e logo ambos concordarem que tudo vai mudar no próximo compasso. Também não estamos tocando muitas das músicas que criamos nas ‘jam’ pois esquecemos a maioria delas mesmo. hahah. Para resolver esse problema estamos com o projeto agora de gravar os ensaios e poder escutar e estudar mais as nossas músicas.
Quanto ao disco, o material foi produzido pelo Pêu Ribeiro lá de Sorocaba/SP que trabalha no estúdio Mústachi. Viajamos até Sorocaba e ficamos por lá uma semana gravando tudo em faixas separadas. Gravação é um processo muito interessante. Você repensa toda sua música, e percebe o déficit de técnica que você tem, haha. De fevereiro até maio o Pêu ficou por lá mixando e masterizando enquanto nós voltamos pra Franca e ainda gravamos mais algumas pistas de guitarra e sintetizadores para conseguir chegar em uma ambiência que a gente queria nesse trabalho de estúdio. Nesse período também trabalhamos em construir o nosso próprio site por onde rola todas as informações da banda e o download gratuito do disco.

Foto 1

BF: Que influências tem os músicos?
C: Me parece que nesses últimos tempos todos da banda tem passado por uma fase de ouvir mais coisas do que costumávamos ouvir. Também me parece que a maioria das coisas que a gente escuta tem vocal. Eu, particularmente, pesquiso academicamente o jazz-fusion instrumental brasileiro do final de 70 começo 80: uma vertente de som que não tem relação direta com nossa música, mas sempre acaba influenciando de uma maneira ou de outra. Citando umas bandas que ouço muito(e não instrumentais), posso dizer o The Mars Volta, Nirvana, Jack White, Jeff Buckley, Queens of The Stone Age, Radiohead, Mew, Iggy Pop, Led Zeppelin, MC5, Sonic Youth, etc. Em contrapartida, estamos bem ligados também nesse pós-rock-instrumental de hoje com bandas muito boas como: , Toe, Russian Circles, And So i Watch You From Afar, Jacks Marquise, Explosions in the Sky, Tortoise, Mogway, etc.

BF: Porque música instrumental?
C: Eu acho que o instrumental aconteceu como produto em nossas vidas. Não foi um projeto premeditado. Na minha concepção foi o meio/direção encontrada por nós naquele determinado momento (inicio do Catexia) de conseguir expressar nossas angústias e nossa subjetividade. Tocar é um tesão enorme, mas apesar da internet ser pressuposto no mundo do século XXI e de algumas bandas ‘independentes’ terem uma certa visibilidade, ainda é muito difícil ser artista independente na música hoje em dia no interior de SP. Desde o local pra ensaiar, até lugares para apresentar as composições (o cover é hegemonia) chegando até a distribuição do seu trabalho. Além desse problema estrutural, ter uma banda também é complicado pra gente pois também existe a questão da convivência cotidiana, que acredito ser um divisor de águas indireto pras nossas composições . Entre essas conturbações todas, acho que a Catexia se encontrou no instrumental. Quero dizer: entre a soma dessas dificuldades estruturais e das nossas constantes brigas, a gente acabou encontrando um caminho coletivo dentro da música instrumental.
Mas não é porquê adentramos na estética instrumental sem um projeto prévio que não conhecemos as especificidades desse tipo de música. Como eu disse na resposta anterior, o próprio pós-rock instrumental contemporâneo é, também, uma influência bem importante pra gente. Mas eu acho que se o Catexia pode ser enquadrado nesse pós-rock-instrumental foi mais por uma armadilha do destino do que por um projeto estético nosso. E eu também acho isso bem interessante porquê eu vejo a música que a gente faz como algo que se cria quando não existem mais saídas, quando não se tem pra onde ir, como uma briga com você mesmo. Além disso, eu percebi que todo mundo da banda acabou pesquisando um pouco sobre a música instrumental, por acabar se inserindo no meio. Então, acredito que estamos vivendo hoje sobre uma série de indagações sobre o fazer instrumental-independente hoje no Brasil (senão pelo menos em Franca, haha).
Além de tudo isso, eu particularmente tenho um pouco de medo da música instrumental. Por talvez soar subjetivo demais, de virar apenas técnica(no sentido de estrutura) musical. Eu considero a letra um elemento muito rico pra qualquer artista se expressar, sobretudo na música, onde é possível unir elemento textual com melodia musical, ritmo e entoação. Na Catexia conversamos algumas 2 ou 3 vezes sério sobre colocar vocal, mas não foi/é a nossa saída enquanto banda. Na verdade, em nossas últimas conversas pensamos em colocar 1 ou 2 frases em algumas músicas e repeti-las usando a base alguma melodia, quem sabe essa ideia não vai pra frente e fazemos algo diferente no próximo EP.

Foto 2

BF: Vocês veem a música instrumentam como uma cena?
C: Olha, posso estar falando muita merda, mas eu acho que nunca na história da música surgiu tanta banda instrumental em um determinado país como aconteceu no Brasil pós 2000(talvez 2005): Fóssil, Labirinto, A Banda de Joseph Tourton, Camarones Orquestra Guitarrística, Macaco Bong, Skrotes, Burro Morto, Hangovers, Urso, Aeromoças e Tenistas Russas, Bexigão de Pedra, Tupi Balboa, Eletroeco, Dibigode, Malditas Ovelhas!, 4Instrumental, Vendo 147, The Tape Disaster, ruido/mm, Ubella Preta, Constantina, SOMA, Herod Layne (tocaram com o The Cure a pouco tempo), Mama Gumbo, Bexiga 70, Pata de Elefante, Avec Silenzi, Tigre Dentre de Sabre, Mullet Monster Máfia, Huey, Os Pontas, Buffalo, Mamma Cadela, Hurtmold, Elma e a lista não para. Quase todos os estados do Brasil estão representados pelo instrumental, e muitas bandas viajaram para o exterior já. Se uma quantidade tao grande assim de bandas nao pode ser chamada de cena instrumental, não sei o que poderá ser denominado dessa maneira. Também acho que farão alguns estudos sobre essa movimentação no futuro.