Arquivo da categoria: Poesia

o humilde herdou

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o humilde herdou

se eu sofro assim diante dessa
máquina de escrever
pense em como eu me sentiria
entre os colheredores
de alface em Salinas?

penso nos homens
que conheci nas
fábricas
sem qualquer chance de
escapar –
sufocados enquanto vivem
sofocados enquanto riem
de Bob Hope ou Lucille
Ball enquanto
2 ou 3 crianças jogam
bolas de tenis contra
as paredes.

alguns suicídios jamais são
registrados.

(Charles Bukowski)

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boletim do tempo
suponho que esteja chovendo em alguma cidade espanhola
neste momento
enquanto me sinto mal
desse jeito;
gosto de pensar nisso
agora.
vamos a um vilarejo mexicano –
isso soa bem:
um vilarejo mexicano
enquanto me sinto mal
deste jeito
as paredes amareladas pelo tempo –
aquela chuva
lá fora,
um porco se movendo em seu chiqueiro à noite
incomodado pela chuva,
os olhos diminutos como pontas de cigarro,
e seu maldito rabo:
pode vê-lo?
não consigo imaginar as pessoas.
talvez elas também estejam se sentindo mal,
quase tão mal quanto eu.
pergunto-me o que elas fazem quando se sentem
assim?
provavelmente não o mencionam.
dizem apenas,
“veja, está chovendo”.
Assim é melhor mesmo.
(Charles Bukowski)

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noite de Natal, sozinho 

noite de Natal, sozinho,
num quarto de motel
junto à costa
perto do Pacifico –
ouviu?

eles tentaram fazer desse lugar algo
espanhol, há
tapeçarias e lâmpadas, e
o banheiro é limpo, há
minibarras de sabonete
rosa.

não nos encontrarão por
aqui:
as piranhas ou as damas ou
os adoradores
de ídolos.

lá na cidade
eles estão bêbados e em pânico
furando sinais vermelhos
arrebentando suas cabeças
em homenagem ao aniversário de
Cristo. isso é uma beleza.

em breve terei terminado esta garrafa de
rum porto-riquenho.
pela manhã vomitarei e tomarei
banho, voltarei para
casa, comerei um sanduíche à uma da tarde,
estarei no meu quarto por volta das
duas,
estirado na cama,
esperando o telefone tocar,
sem responder,
num feriado é uma,
evasão, minha razão
não é.

(Charles Bukowski)