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Entrevista – Inti Queiroz

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Saindo um pouco da rotina das entrevistas que faço aqui no blogue, sempre perguntando principalmente sobre discos lançados por artistas brasileiros, hoje a entrevistada  não atua na música instrumental propriamente tocando, e sim, produzindo. Inti Queiroz está trabalhando com música instrumental há quase 10 anos, e seu principal projeto no segmento é o Festival PiB (Produto Instrumental Bruto) que em 2015 vai pra sua sexta edição, revelando e trazendo à tona bandas instrumentais de todo Brasil. Além do trabalho como produtora, recentemente iniciou pesquisa acadêmica, discorrendo sobre as políticas públicas brasileiras.
PiB, música instrumental e políticas públicas são o mote da esntrevista, além de uma dica da própria de um disco que acaba de sair do forno.

foto Inti

Boca Fechada: Como e quando você começou a trabalhar com música instrumental? Que mudanças, se tiverem claro, notou nesse período?
Inti Queiroz: Eu comecei a trabalhar com produção de música instrumental mesmo no PIB a partir de 2006. Porém, minha relação com a nova música instrumental começou bem antes. Nos anos 90, trabalhei bastante com produção de shows e festivais em SP e Curitiba, toquei em algumas bandas (com vocal) e essa relação direta com a cena independente ajudou a perceber que estava nascendo um cena da nova música instrumental no Brasil já no fim dos anos 90.  Em Curitiba, conheci e toquei junto com diversas bandas instrumentais, principalmente por causa da cena de bandas de surf music. Desta época destaco a banda Maremotos, que inclusive acabou tocando na primeira edição do PIB em 2007.
Em 2002, voltei a morar em SP e passei a frequentar shows de bandas da nova música instrumental. Eram poucas, mas por serem bandas de amigos, acabei assistindo vários shows. Dessa época lembro de alguns projetos instrumentais do Nandinho (hoje no Martinez) e também de dois projetos do Alex Cruz (hoje Mama Gumbo e Dharma Samu), o Flaming Salt e o Effervecing Elefants. E também em mnhas idas a Porto Alegre conheci a Pata de Elefante. Essas bandas me incentivaram muito a pensar num festival. Acho inclusive que essas bandas deram o tom pra cena de hoje.

Entre 2003 e 2004 trabalhei numa grande produtora de projetos culturais e tive a oportunidade de fazer várias viagens a trabalho pelo país. Nas viagens conheci várias cenas locais de perto e percebi que as bandas instrumentais estavam pipocando por ai e que a sonoridade dessas bandas era realmente diferente da tradicional música instrumental brasileira. O que chamou atenção foi que eram bandas de vários estilos, algumas com estilos musicais indefinidos, mas tinham uma veia de música alternativa, algo entre o rock, o experimental, o psicodélico.
No fim de 2004, a produtora que eu trabalhava abriu uma concorrencia para os produtores sugerirem projetos de música para oferecer a uma marca patrocinadora. Já sabia que existia demanda para projetos instrumentais e que as leis de incentivo à cultura favoreciam esse tipo de música.  Junto a uma equipe, criamos o que seria o embrião do Festival PIB. No final das contas não deu certo, mas o projeto ficou na cabeça.
Em 2006, a secretaria estadual de cultura de SP abriu um edital para festivais de música e uma das modalidades era para festivais de música instrumental. Enviei o PIB e ele foi contemplado no edital.

BF: Como surgiu a ideia do PIB e que balanço você faz da edições que ocorreram até agora? Quais os maiores ganhos e as maiores dificuldades que notou no processo todo?
IQ
: Acho que já respondi parte dessa historia na pergunta anterior. A ideia como um todo partiu e um grupo de pessoas, bem como sua produção. Até chegar ao que foram as primeiras edições tudo foi muito pensado, desde seu conceito, seu formato, o tipo de bandas que entrariam ou não entrariam. A primeira edição foi um piloto. Tudo era novidade pra gente. Abrimos inscrições, divugamos pela internet e 44 bandas enviaram material. Foram 12 bandas, algumas que já conhecíamos e outras que selecionamos quase que no escuro. A primeira edição teve total apoio do SESC Pompéia e isso ajudou muito na produção como um todo. A equipe do SESC faz o lance acontecer. Na segunda edição tivemos um otimo patrocinador. Isso permitiu que o projeto crescesse bastante, reformulamos nossa equipe, e assim o projeto cresceu demais, talvez além do que inicialmente gostaríamos. O festival passou de 3 dias para 5 dias, de 12 bandas pra 20 bandas. O festival ganhou um especial de 1 hora na MTV que foi exaustivamente reprisado. Isso acabou refletindo nas edições seguintes, que não tivemos o mesmo apoio financeiro, mas passou a ter reconhecimento na cena indepdente como um todo. O PIB acabou ficando uma produção cara e maior do que ele buscou ser desde o início. Na quarta eidção em 2011 não conseguimos patrocinio, acabamos fazendo um festival pequeno, de apenas um dia. Isso me desanimou bastante.  A intenção era não deixar a  historia morrer, mas tudo conspirava contra.  Nesta mesma época eu comecei um mestrado na USP que exigiu dedicação total e isso também acabou me afastando um pouco da produção. Cheguei inclusive a pensar em não fazer mais o PIB. Mas a cena sempre me cobrava, pedia a continuidade. No fim de 2013, o pessoal da Casa das Caldeiras me chamou para ajudar na gestão de alguns projetos da casa e uma das questões envolvidas era fazer uma edição do PIB em 2014. Meu envolvimento na produção executiva do Tododomingo Musical em SP, projeto da casa que o PIB é parte, acabou ajudando a retomarmos o PIB em agosto de 2014. Por conta desse apoio da Casa das Caldeiras também já é certo que em 2015 o PIB terá uma edição em abril e provavelmente outra no segundo semestre. Acho que os ganhos neste processo foi da cena da nova música instrumental. Muitas novas bandas surgiram por causa do PIB. recebemos cartas e emails de bandas de todo Brasil falando isso. E também o PIB permitiu que essas bandas se conhecessem, ficassem amigas, passassem a de fato levar a cena adiante. Talvez sem o PIB isso teria sido mais difícil de acontecer. Foram mais de 54 bandas tocando nesses 7 anos. Parece pouco, mas para uma cena tão peculiar como a da nova música instrumental é bastante.

pib2014

Festival PiB – 2014 (Casa das Caldeiras)

 

BF: De uns dez anos pra cá percebi que surgiram muitas bandas instrumentais na mesma medida que muitas deixaram de existir. Você acha que realmente aconteceu isso, ou foi uma impressão errada? Se acha, vê um motivo nisso? O mercado pra música instrumental é muito restrito? Acredita que exista uma cena instrumental no Brasil?
IQ
: Claro que existe uma cena, mas é uma cena da nova música instrumental. Ela é muito diferente da cena da música instrumental tradicional. Essa cena tem peculiaridades, como  uma estética diversa, que mistura sons, que tem influências da música pop, do Jazz, do rock, da música eletrônica. É uma cena de vanguarda. O diferencial da cena mais tradicional é essa mistura e influência de outras cenas.  Se pensarmos que das mais de 400 inscrições que tivemos em 5 edições do PIB, pelo menos metade foram de bandas que tinham a estética dessa nova cena, acho que é bastante coisa. Muitas dessas bandas sumiram, mas muitas outras surgiram. Na ultima edição em 2014, tivemos 64 inscritos, destes pelo menos umas 25 bandas eram totalmente novidade pra mim e a maioria delas muito boas. Em 2014 essa cena teve uma injeção de ânimo com os novos projetos voltados para esta cena específica como o Música Muda, o Mais instrumental, e o Onda Instrumental. Curioso é que são projetos criados por bandas que tocaram no PIB e o espírito é o mesmo, fomentar a cena.

BF: Saindo um pouco do instrumental,você tem estudado e trabalhado as políticas públicas na área de cultura. Conte um pouco sobre seu estudo, e como você as políticas públicas de cultura no Brasil.
IQ
: Quando voltei pra Universidade em 2007, minha intenção era compreender como se processava a produção cultural do ponto de vista da construção dos projetos culturais, pois como produtora escrevi e aprovei dezenas de projetos culturais desde 2002. Nem pensava em partir para uma pesquisa tão profunda, mas o processo acabou me levando a isso. Acabei engatando uma carreira acadêmica, fazendo um mestrado e agora começando um doutorado sobre o tema. Meu mestrado tratou da criação dos projetos culturais. Minha dissertação propõs que o primeiro grande entrave na produção cultural brasileira era a complexidade para a criação, a escrita de um projeto e a compreensão de leis de incentivo e editais. Agora no doutorado minha tese mudou um pouco de rumo. Vou trabalhar com a construção do Sistema Nacional de Cultura com uma nova estruturação e uma nova visão das políticas culturais a partir do Ministro Gilberto Gil. Hoje estamos vivendo uma fase de transição nas políticas culturais e meu doutorado vai falar disso. Passamos por 2 fases nas politicas culturais. Até o fim da ditadura militar, as politicas culturais eram institucionais e patrimoniais, políticas pensadas de cima para baixo. O estado agindo de forma autoritária com a cultura. Depois da redemocratização nos anos 80 com a influência dos governos liberais nos anos 80 e 90 surgiram as leis de incentivo onde o verdadeiro destinador é o mercado e os patrocínios, ainda que as verbas sejam públicas. A partir de 2003 com a entrada do Gil, surge um novo olhar para as políticas culturais que passam a ser pensadas em toda sua diversidade e incentivadas debaixo para cima. O mercado começa a perder força e o estado passa a incentivar a produção cultural já existente. O programa Cultura Viva e os Pontos de Cultura são um bom exemplo desta nova visão onde não é mais o mercado que dita as regras. Essa fase de transição que vivemos hoje, depdende muito do sucesso da implantação do Sistema Nacional de Cultura, conhecido como o SUS da Cultura. Talvez os resultados só apareçam daqui uns 5 anos, pois agora estados e municípios estão tentando se adequar a isso e o processo está lento por causa da burocracia e da novidade. Outro ponto essencial do momento atual é a aprovação da  PEC da Cultura que visa aumentar as verbas de cultura e a lei Procultura que substituirá a Rouanet. Depois que estas forem aprovadas e regulamentadas estaremos definitivamente entrando na terceira fase das políticas culturais no Brasil, a fase da democratização das políticas culturais, construídas em cooperação entre Estado, conselhos, agentes culturais, artistas e público.

Mama Gumbo - Festival PiB 2009 (CB Bar)

Mama Gumbo – Festival PiB 2009 (CB Bar)

BF: Pra encerrar, dê uma dica de alguma música, artista ou disco que ouviu recentemente e te chamou atenção.
IQ
: Eu sou bem eclética musicalmente, tenho ouvido de tudo. Este ano comecei a fazer uma pesquisa da música brasileira mais popular dos anos 70 e 80. Principalmente música nordestina em geral. Estou apaixonada e cada vez mais indo em busca de artistas considerados bregas pelos puristas e conservadores.  Estou me divertindo. Na música instrumental as bandas novas que gostei bastante esse ano e ainda não tocaram no PIB foram a Bombay Groove de SP e a Experience Nebula Room do Rio Grande do Sul. Ótimas bandas! Merecem atenção.
Esse ano tivemos o lançamento do primeiro disco do Tigre Dente de Sabre, banda que acompanhei de perto por causa do PIB. O disco ” Morte Iniciática” está maravilhoso. Acho que evoluiram ainda mais o som que ja era bom. Mostraram bem porque são uma banda PIB que gosto tanto, foram do bruto ao lapidado e do lapidado a extrema vanguarda. Merecem carreira internacional e topcar em grandes festivais.  Sâo o que de mais vanguarda hoje é produzido no Brasil em termos de musica. Posso dizer que pra mim esse é o melhor disco de 2014.

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Entrevista – Onda Instrumental

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Onda Instrumental

O Onda Instrumental é um projeto desenvolvido e voltado para música instrumental; começou suas atividades em maio, realizando shows de bandas instrumentais, primeiramente na cidade de São Paulo (com ideia de expansão para outras cidades), e fizeram até o momento quatro eventos, todos realizadas no Puxadinho da Praça, espaço bem legal localizado na Vila Madalena.
A ideia partiu dos músicos do Chimpanzé Clube Trio, power trio,  com mais de dez anos de carreira, que viu a necessidade de realizar um evento pra divulgar a música instrumental, já que nos últimos anos tem surgido muitas bandas da música sem palavras. No próximo sábado, em sua quinta edição, o projeto aporta em outro endereço, estreando a ideia nos palcos da Serralheria, uma das casas mais bacanas de São Paulo, voltada à música independente.

Troquei uma ideia com Felipe Crocco, um dos idelaizadores e produtores do Onda Instrumental e também integrante do Chimpanzé Clube Trio.

Boca Fechada: Como surgiu a ideia do Onda Instrumental? Quem e porque capitaneou o projeto?

Onda Instrumental: Desde o fim do ano passado (2013) vinhamos conversando sobre fazer uma ação coletiva entre bandas. Pensamos em tocar na rua ou juntar algumas bandas pra fazer um festival mas queríamos algo que fosse mais permanente e não apenas alguns eventos isolados. A partir de algumas conversas com programadores de casas de show de música autoral, rolou a ideia de fazer uma parceria não só com as bandas autorais mas também com as casas que apoiam essa cena. Combinamos uma data mensal com o pessoal do Puxadinho da Praça e em seguida com a Serralheria também. Porém a ideia nunca foi fazer um projeto só do “Chimpa”. Queremos que outras bandas façam suas Ondas em outras casas, outras cidades, outros estados, outros países e nos chamem pra tocar em todas elas um dia se possível!
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BF: A ideia é realizar só shows ou outras ações também?

OI: Na Serralheria os eventos vão contar com discotecagem e feira de discos de vinil de som instrumental. Criamos uma fanpage da Onda Instrumental que pode ser uma excelente plataforma coletiva de divulgação e comunicação para esta cena. Estamos adicionando outras bandas e produtores de eventos de música instrumental que tem usado a página para divulgar seus trabalhos. Se a coisa continuar crescendo do jeito que está atualmente pretendemos fazer um festival Onda Instrumental que pode ser na rua, no SESC, no CCSP ou em outro lugar que tope abrigar o projeto.

BF: Porque vocês escolheram trabalhar sem cachê ou bilheteria pra custear a produção? Acham viável? Como as casas receberam essa proposta?

OI: Quando você trabalha no sistema “quanto vale o show” as pessoas ficam mais estimuladas a contribuir. O valor da bilheteria, mesmo sendo baixo, muitas vezes afasta um público que é muito importante pra nós. Aquela pessoa que vai uma vez só pra ver “qual que é” e acaba gostando, voltando nos outros eventos e chamando os amigos. As casas receberam muito bem a proposta. O pessoal do Puxadinho da Praça e da Serralheria tem um pensamento muito parecido com o de muitas bandas. Assim como nós a maior preocupação deles é com música e cultura, não com dinheiro. Claro que estar nessa “pela causa” não quer dizer que não temos contas pra pagar no fim do mês. Por isso mesmo preferimos nos juntar e colaborar para tentar criar condições permanentes de sustentabilidade para bandas, casas de show, mídias alternativas e todos aqueles que fazem parte da cadeia produtiva da música autoral.
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BF: Como as casas se colocaram a frente de um projeto de música instrumental? Quanto a público como vocês enxergam o público perante a esse tipo e música?

OI: As casas, assim como nós, percebem que existe uma demanda forte nesse setor. Tem muita banda boa tocando e produzindo trabalhos de alta qualidade. Muitas delas tem público cativo e uma grande capacidade de autogestão. O público sempre recebe muito bem a música desse tipo que a gente faz. Essa cena é composta por bandas e artistas que fazem música instrumental popular. As pessoas hoje em dia não esperam mais aquela coisa hermética e complicada de músicos virtuosos e tal. As bandas que participam da Onda Instrumental fazem música que poderia tocar no rádio sem problema nenhum.

BF: Vocês estão há um tempo envolvidos com a música instrumental. Como vocês veem ela desde que começaram a trampar a partir dela, e acreditam que exista uma cena instrumental?

OI: Talvez a gente esteja em um dos melhores lugares do mundo pra fazer música instrumental. Eu não sei explicar por que mas o Brasil sempre teve grandes músicos e bandas dedicadas a música instrumental e sempre foi capaz de lançar tendências na música mundial. Devemos muito a todos que vieram antes da gente e abriram os nossos caminhos. Ainda há muita coisa a ser feita pra que uma banda autoral (instrumental ou não) seja um projeto de vida sustentável no Brasil mas essa situação não é muito diferente em outras partes do mundo. Aliás nosso papel não é só tocar. Temos que conseguir criar condições de sustentabilidade para projetos culturais que não se inserem na lógica do lucro e isso se faz coletivamente em parceria com bandas, casas de música autoral, centros culturais, mídias alternativas, secretarias de cultura, lojas de discos, fabricantes locais de equipamentos, estúdios, etc.
Acreditamos que existe sim uma cena instrumental. No Brasil ela está muito bem representada por festivais como o PIB (Produto Instrumental Bruto), o Música Muda, o MIMO, entre outros, e por bandas como Huey, Camarones Orquestra Guitarrística, Martinez, Elma, Bombay Groovy, Aeromoças e Tenistas Russas, Malditas Ovelhas!, Macaco Bong, Di Bigode, Porto Duo, Hurtmold, Rumbo Reverso, Bixiga 70, Mamma Cadela, Pata de Elefante, 3 Cruzeiros, Fóssil e muitas outras mais.

BF: Indiquem uma música, disco ou artista que tem ouvido ultimamente.

OI: Tenho escutado muito o álbum recém lançado “Pelicano” da banda Constantina de Belo Horizonte – MG (http://miojoindie.com.br/tag/constantina/). Um trabalho extremamente bem feito e totalmente viajante. Muito massa!

Segue um vídeo de uma apresentação do projeto:

Chá de Pólvora na Terceira Edição do Onda Instrumental