Arquivo diário: março 14, 2012

Ytcha – Mama Gumbo (2012)

Padrão


1. Fim do Mundo (Parte 1)
2. Mouse Hop
3. Mesmerizador
4. Borborelo
5. Fim do Mundo (Parte 2)
6. Peter Gunn
7. Fim do Mundo (Parte 3)
8. Flamingo Jazz
9. Horseypig Cymbals Orchestra
10. Paulera no Gato
11. Fim do Mundo (Parte 4)

Como mencionado em um dos últimos post’s, hoje é dia de estréias. Vamos lançar por aqui o novo disco da banda paulistana Mama Gumbo e também iniciar um nova sessão aqui no blog: uma entrevista, pra além de nós, os próprios músicos interpretarem sua obra e bater um papo sobre música e outras cositas.

Ytcha” foi lançado nos últimos dias pela própria banda e disponibilizado gratuitamente pra download. O disco soa o mais maduro da discografia do Mama e  não só per ser o mais recente, mas principalmete por sua sonoridade. Se ouvirmos o primeiro disco do grupo: Mama Gumbo, de 2004, percebemos que “Ytcha” está mais próximo do disco que deu o pontapé inicial da discografia da banda, do que do anterior ao lançamento, o Na Garagem dos Cães de 2011. E isso não soa como um retrocesso, parece mais um aperfeiçoamento da ideía inicial, como se a banda voltasse no tempo e tocasse o álbum de outra forma, com toda bagagem adquirida nos quase 10 anos de história.

“Ytcha” foi gravado nos estúdios Menino Muquito em São Paulo, mixado e masterizado por Dharma Samu e produzido pela própria banda. Os músicos do disco são: Alex Cruz (piano, orgão, sinteizador e sax tenor), Luís Jesus (baixo e baixo fuzz), Márcio Bononi (percussão) e Thiago Horácio (bateria). Particparam também os convidados: John Sales (sax alto), Clayton Martin (pratos e grunhidos), Davilym Dourado (guitarra) e João Paulo (guitarra, teclados, desconstruões e aleatoridades). A grande mistura setentista e lisérgica está mais madura do que nunca. Se liga na pedra!


Pra mais uma estréia, segue a entrevista na íntegra com o tecladista da banda Alex Cruz. Nela, ele fala um pouco do grupo, do disco e faz uma análise de como enxerga a música independente atual e também sobre a nova cena instrumental brasileira. Vale a pena conferir!

Boca Fechada: O que é Yttcha? Por que e a escolha pelo nome?

Alex Cruz: Ytcha é um disco conceitual… a palavra é um estado de espírito, um grito de guerra, um conceito que permeia todo o álbum… mas é algo livre que vc pode adaptar pra sua história, seus sentimentos, sua interpretação das músicas e de todo o álbum… gostamos de dar nomes mais livres para as músicas, para que o ouvinte possa criar uma interpretação diversa, baseada nas suas próprias experiências… acho que essa possibilidade de criação conjunta com o ouvinte é um dos grandes lances da música instrumental.

BF: Ouvindo o primeiro disco de vocês de 2004 e Ytcha, percebemos algumas similaridades e diferenças. O experimentalismo está nos dois, mas ficou perceptível que as idéias estão mais no lugar. Isso é escolha ou rolou naturalmente?

AC: É incrível, mas Ytcha é o disco que mais se aproxima do primeiro álbum de 2004… parece quevoltamos para muitas idéias iniciais, mas de um modo mais coerente e organizado, como se fosse um caminho elíptico, fazemos a volta e chegamos perto do que era mas seguindo para um outro caminho. Quando terminamos o Flaming Salt e demos início ao Mama Gumbo não sabíamos exatamente o que queríamos, esse lance de nova música instrumental era novo e ninguém ligava pra isso… tínhamos um sentimento do que iríamos fazer e tínhamos um modo operandi meio pronto, mas ainda não éramos tão conscientes disso, pode se dizer que não tínhamos o conhecimento pra seguir pelo caminho que estávamos criando…. com o tempo, com a entrada de novos integrantes, de novas experimentações a coisa foi ficando mais clara e acabei sendo uma espécie de guardião dessa idéia inicial, que apesar das mudanças sempre esteve presente, foi o que manteve o Mama ativo durante esse tempo. Hoje e com esse disco posso dizer que estamos plenamente maduros e conscientes de todos os nossos processos, isso tem a ver com as experiências acumuladas e também com os integrantes que estão nessa formação, agora temos idéias muito próximas e com uma ligação muito forte e clara do que o Mama Gumbo é. Além do mais era impossível gravar um disco do porte do Ytcha naquela época, isso do ponto de vista técnico, de instrumentação, de produção… muitas coisas mudaram no mundo e aprendemos bastante… esse não é um disco de iniciante, é algo pensado e muito bem organizado, onde conseguimos chegar num consenso entre técnica,
produção e concepção… provavelmente é o nosso melhor trabalho até agora, pelo menos do ponto de vista da expressividade de idéias… chegamos exatamente no ponto que queríamos e isso é muito difícil de conseguir.

BF:  O Mama Gumbo teve algumas formações ao longo de sua história. Como você acha que isso influenciou no som da banda?

AC: Acho que foi positivo pro Mama, a cada formação tivemos que trabalhar com novas idéias e possibilidades, lidar com músicos de diferentes vertentes e vivências. A cada integrante que entra o som muda, por que o cara acaba trazendo toda sua bagagem e isso influência no som, de um é lado bom por que temos que trabalhar com novas idéias, novas experimentações e no fim, todos aprendemos muito uns com os outros. O Mama é a soma de todas essas vontades coletivas, mas guiadas por uma idéia original que não pode ser perdida. Às vezes experimentamos mais e ficamos um pouco mais longe dessa idéia, mas depois voltamos a ela e assim vamos criando muitas possibilidades… cada disco do Mama é de um jeito, mas se vc perceber existe uma ligação muito forte entre eles, uma espécie de linha condutora, uma maneira muito própria de fazer música.

BF: A banda é uma das bandas pioneiras dessa nova cena instrumental e sempre foi independente ao extremo. Como você enxerga o cenário independente atualmente e essa nova música instrumental?

AC: É incrível ver como tudo cresceu… em 1999, 2000, fazer música instrumental independente era loucura, não havia lugares pra tocar , não havia que consumisse esse tipo de som. Acho que com a abertura que a internet trouxe, facilitando o acesso a todo o tipo de música, acabou abrindo a cabeça das pessoas (e isso não só para a música intrumental). Isso só prova que com acesso as pessoas podem gostar de coisas que antes se achava serem anti comerciais… ao meu ver a música instrumental foi a que mais cresceu com essa abertura e com essa formação de público independente que vemos agora (também decorrente da internet e do acesso a diferentes formas de cultura). Isso é novo e pode se ver claramente o ínício desse novo público, dessas novas bandas que começaram por volta de 2004 mais ou menos. É uma outra mentalidade e isso acabou culminando numa outra maneira de organização, mais ativa que a dos anos 90, onde as pessoas começaram a explorar mais as possibilidades da criação desse mercado (uma vez que o grande mercado estava ruindo). Os grupos também mudaram, se tornaram mais “profissionais “e podemos ver o quão prolífica se tornou a produção musical desde então. As bandas instrumentais matam a pau, todos os dias vemos uma banda fazendo um puta som, um puta disco, enfim, a cena instrumental cresceu e está produzindo pérolas que não perdem em qualidade pra nenhum lugar do mundo. No entanto a cena como um todo não me agrada e acho que estamos perdendo a possibilidade de criar algo novo que valha a pena, e o pior, talvez não se possa remediar mais pra frente, agora estamos com a faca e o queijo na mão mas isso pode não durar muito.
O Brasil nunca conseguiu criar uma cena independente de verdade (não no sentido da criação musical, sempre houveram ótimas bandas independentes), ninguém, nenhuma gravadora investiu na criação desse mercado que poderia ser um quinhão milionário, onde poderia haver pouco investimento e um retorno gradual, mas substancioso… mas isso nunca interessou as grandes gravadoras, eles querem apenas lucro alto e imediato. Coube a organizações menores, coletivos, ongs e afins a exploração desse campo tão fecundo. Esses grupos batalharam bastante e muita coisa melhorou em termos de divulgação, de espaço para apresentações e etc, no entanto em algum momento isso degringolou… acabou se criando um processo de exclusão ao invés do contrário, tudo passou a ser politicagem, já que se percebeu que pode se ganhar muita grana nesse processo. A maioria dos festivais não abrem processo seletivo (não há como mandar seu material por que eles não estão interessados em descobrir bandas), no único site criado pra suprir esse problema não existe uma ética e vários aproveitadores já estão agindo por lá, cobrando venda de ingressos para se poder tocar, taxa para inscrição de festivais que não se sabe se vão acontecer… no Sesc, lugar que tem um estrutura e rola uma grana existe um fosso entre o profissionalismo e o amadorismo (não há espaço pra bandas que estão se profissionalizando), e como rola dinheiro a possibilidade de inserção é bem difícil. Não há mídia que fale sobre as bandas independentes e qusase nenhum dj e nenhuma rádio toca esse tipo de música (exceto os podcasts, rádios independentes e tal), nenhum crítico se interessa aponto de escrever sobre (a não ser em pequenas notas), isso tudo por que o dinheiro não está passando por ali. Os músicos continuam sendo explorados, agora não apenas pelos donos de bar, mas por alguns coletivos que são mestres de angariar verba mas não de repassar, o descaso reina em todos os meios e em mais de um festival dito independente já vi músicos e bandas serem destratados pela produção do festival que só pensa em puxar o saco dos grandes ou médios que foram chamados pra tocar e que são (com sua imagem) o que os ajudam a captar a verba, verba essa que é gigantescamente mal dividida (um artista médio ganha 12.000, as bandas independentes que são o motivo do festival ganham 500, as vezes 1000, isso quando ganham, por que o normal não é pagar). Existe um pensamento de escambo que pode ser bom num sentido mais no final avilta o músico que vive disso e precisa ganhar pelo seu trabalho.
Resumindo eu acho que muitas coisas boas foram criadas e houve uma melhora nas condições desde o ínício dessa nova cena, mas agora muitas coisas estão deixando a coisa ruim a tal ponto que tem gente começando a sentir saudade de uma outra época anterior a isso tudo. O músico precisa ser tratado com dignidade e o primeiro passo e dar condições pra ele poder viver da sua arte. É importante pensar que o principal é a música e as pessoas que a criam e a reproduzem, temos a possibilidade de mudar muita coisa e transformar o mercado mas não acredito que seja da maneira que vem ocorrendo. A politicagem reina a tal ponto que é mais importante gastar muitos mil reais numa semana de discussões sobre a música independente do que pagar o cachê de 500 paus pra uma banda e que está atrasado em mais de 6 meses. Na verdade essa é uma longa discussão e seria necessário muito mais espaço pra dissecar tudo. Pra terminar posso dizer que o m=Mama sempre andou sozinho, mas isso por que as diversas parcerias foram sempre nocivas e visavam apenas a exploração do grupo… vamos continuar fazendo nossa arte e tocando por aí, se profissionalizando cada vez e fazendo novas parcerias (não somos fechados, pelo contrário, estamos sempre em busca de novos parceiros), por que isso é o que queremos. Acreditamos acima de tudo na música e na dignidade do artista, mas parece que dentro de todo esse processo sejamos um dos poucos a acreditar nisso.

BF:  Quais os planos com o disco lançado?

AC: Em foi lançado apenas virtualmente, a próxima etapa é angariar fundos pra poder prensar oálbum. Isso por que é mais necessário e importante a embalagem do que o conteúdo hoje em dia (não deveria ser assim já que todo mundo baixa os discos e tal, mas…). Estamos atrás de parcerias que possam nos ajudar com isso, desde a doação, a venda antecipada de cds até a possibilidade de apresentação para podermos levantar a quantia necessária. Assim que o disco sair queremos tocar em outras cidades e tentar alcançar um público maior, divulgar o trabalho e circular pelo Brasil…