Arquivo da categoria: Punk

HAB (2013) – HAB

Padrão

capa hab

1. Bugio
2. Conduz
3. Cratera
4. Suco
5. Em Tempo
6. Três Lados

Tô pra postar esse álbum desde que, infelizmente, tive que dar um tempo no blogue, no finzinho do ano passado. Pelos contratempos bons e ruins da vida, fiquei impossibiltado e deixei passsar (por um tempoi) esse belo disco, já que o lançamento do mesmo coincidiu em quando a atividade por aqui diminui. O HAB, projeto encabeçado pelo guitarrista Guilherme Valério, iniciou sua história no ano passado, cheguei a ver um dos primeiros shows, no Mundo Pensante, espaço na cidade de São Paulo, e que naquela noite abrigou um show intenso, com bons temas sendo executados por um time de respeito. Além de Valério, já atuante na música independente, a banda tem Maurício Takara (ao vivo Thiago Babalu) e Marcos Gerez ambos do Hurtmold, e na outra guitarra, Marco Nalesso, há tempos com trabalho na música instrumental, principalmente via Marco Nalesso e a Fundação (antes Marco Nalesso Big Band).

Nesse show disseram estar em processo de produção do primeiro disco, o próprio. Senti pela apresentação que o disco não deixaria a desejar, como fez. São  seis faixas que já dizem muito, principalmente pelo preciso diálogo das guitarras, seguro pela cozinha concisa de Takara e Gerez. Os timbres chamam atenção à primeira audiçao, e foram muito bem escolhidos, soando com precisão junto às dissonâncias que aparecem em muitos momentos na linhas de guitarra, tornando a sonoridade uma mistura de pós rock e pós punk com melodias e ritmos da música brasileira. Sempre que ouço o disco lembro da extinta banda paulistana Veracidad, existente entre fins da década de 90 e início dos dois mil, que fazia um som com influências semelhantes ao HAB.

Pra ouvir o disco, clique aqui!

Mils Crianças (2012) – Hurtmold

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folder1. Naca
2. SNP
3. Hervi
4. Joji
5. Chavera
6. Beli
7. Tomele Tomele
8. Cleptociprose
9. Pigarro

Se o mundo acabar essa semana podemos ir felizes, pois deu tempo de ouvir o quinto (e puta) disco da banda paulistana Hurtmold. Com 15 anos de carreria, tornaram-se ao longo desse período, umas das bandas independentes mais respeitadas e consolidadas da música brasileira. Ficaram 5 anos sem lançar nada e antes do ano – ou o mundo – terminar, saiu o esperado Mils Crianças. Mesmo sem lançar nada sobre a alcunha de Hurtmold, nesses 5 anos os caras não fiacaram parados. Em outros projetos, como MDM, Chankas, M. Takara 3, Bodes e Elefantes, São Paulo Undreground ou acompanhando outros artistas, dentre eles Marcelo Camelo ou a lenda do jazz Pharoah Sanders a marca da banda ficou registrada.

Valeu a pena esperar, pois Mils Crianças mostra que os caras continuam afiadíssimos em suas experimentações. São nove composições inéditas, com a alma da banda, porém com uma consistente escolha de timbres e ritmos mais minimalistas. À primeira audição o disco pode soar mais “fácil”, porém, em entrevista à revista SOMA, os integrantes consideram-no como o “mais difícil” da carreira. É notório o amadurecimento das ideias dos caras; cada elemento, tanto em ritmos e instrumentos, parece mais bem colocado, mais preciso. As músicas estão mais curtas que as composições antigas, justamente pela experiência e diálogo maior que eles travam em suas produções desde 2007, quando lançaram o último trabalho.
Pra ouvir esse discão, clique aqui!

2 (2012) – MarginalS

Padrão

1. I
2. II
3. III
4. IV
5. V
6. VI-a
7. VI-b
8. VII
9. VIII

Quando o material em estado bruto está pulsante, vibrante e quente é impossível segurá-lo nas mãos. A solução é jogá-lo aos quatro cantos e deixar esquentar outros corações e mentes. É essa a impressão que temos ao ouvir os temas livres do disco mais novo do trio MarginalS, formado por Thiago França, Anthony Gordin e Marcelo Cabral. Simplesmente chamado de 2, as experimentações possíveis numa banda que trabalha com a improvisação livre, foram gravadas assim: os caras entraram um dia no estúdio El Rocha, gravaram a sessão que fizeram e saíram com essa pepita lá de dentro, pós produzida magistralmente por Fernando Sanchez.

É a música na sua linguagem mais pura – menos técnica, mais sentimento – e aberta às possibilidades que uma bagagem de anos de vivência dos músicos do projeto traz às improvisações. Músicos que vem modificando um pouco a cara da música brasileira, participando iventivamente de vários trabalhos recentes, elogiados por público e crítica. O simples prazer de tocar, trocar, resulta em belos frutos que nos surpreendem e muito. Tem-se a impressão que o disco não tem início, nem fim. Um caos organizado que ao seu fnal, parece continuar ecoando aos ouvidos.
O lançamento de 2 é na próxima segunda em São Paulo, no SESC Consolação; isso é certo, só não é certo se os temas aqui registrados serão tocados…que dúvida boa!
O disco foi disponibilizado pelos próprios pra download e pode ser ouvido, clicando aqui!

Instrument (1999) – Fugazi

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1. Pink Frost (demo)
2. Lusty Scripps
3. Arpeggiator (demo)
4. Afterthought
5. Trio’s
6. Turisk e Disco
7. Me & Thumbelina
8. Flosting Boy (demo)
9. Link Track
10. Little Debi
11. H.B.
12. I’m so Tired
13. Rend It (demo)
14. Closed Caption
15. Guilford Fall (demo)
16. Swingset
17. Shaken All Over
18. Slo Crostic

Mesmo não sendo um disco totalmente instrumental, a alma da compilação Instrument (Instrument, também é o nome de um documentário sobre o Fugazi, lançado em 1998, que acompanha a carreira da banda entre 1987 e 1997.), lançado em 1999 por uma das bandas mais imporantes do cenário independenete, o Fugazi, é permeada pela ausência de voz, Porém, quando as palvaras aparecem, soam como mais um instrumento, somando-se às doideras e experimentos da banda de Washington, que misturou em seus 15 anos de história, punk, reggae, hard core e funk.

Esses estilos em Instrumet, são levados à um grande diálogo com o noise e diversos experimentos; sempre muito bem estruturados nas tortas melodias e tempos, e nos riff’s marcantes que Ian MacKaye (guitarra e vocal), Guy Picciotto (guitarra e Vocal), Joe Lally (baixo),] e Brendan Canty (bateria) colocam no disco. O espírito punk do Fugazi está além de sua música. A forma de produzir sua carreira também foi inovadora, fazendo shows não somente em grandes casas, mas também em pequenos palcos de “muquifos” do rock alternativo estadunidense.
Ouçam!!

Etiópia (2012) – Sambanzo

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1. o sino da igrejinha
2. xangô
3. tilanguero
4. capadócia
5. xangô da capadócia
6. etiópia
7. risca-faca

A música instrumental brasileira não para de lançar pedras atrás de pedras. O saxofonista Thiago França, músico muito solicitado e ativo nos últimos tempos, acaba de lançar seu novo trabalho; trata-se do disco Etiópia do projeto SambanzoO projeto teve início em 2009 com a gravação e lançamento de algumas músicas, mas segundo Thiago, o projeto ganhou mais corpo nos últimos tempos. E que corpo! O disco é uma mistura fantástica entre ritmos brasileiros, africanos, latinos, com uma alma jazz ao fundo. Nota-se temas relacionados ao samba de gafieira, gênese do projeto, só que evoluido ao experimentalismo reinante nas melodias sinérgicas do sax de Thiago, nas bases e loucuras da banda que o acompanha, acompanhando o experimentalismo que é uma das novas caras da música instrumental brasileira

O disco é uma evolução da música do próprio Thiago, e essa evolução caminha no mesmo sentido da música instrumental brasileira produzida atualmente, com temas mais simples (sem punhetagem) e muito melhor explorados, deixando ouvidos e execução mais livres pra passear entre notas, timbres,melodias e ideías originais. Os músicos do disco são: Marcelo Cabral (baixo), Kiko Dinucci (guitarra), companheiros inseparáveis de Thiago em outros projetos, Samba Sam (percussão), Welington Moreira “Pimpa” (bateria) e o próprio Thiago França (sax tenor). Todas as composições, execeto as músicas 1 e 2 são do saxofonista, e arte também é de Kiko Dinucci e a produção o disco é de Rodrigo Campos, grande compositor e do próprio Sambanzo.
O disco foi disponibilizado pelo próprio Thiago no site do projeto! Aproveite!!

Trocamos uma ideía com Thiago França, sobre Sambanzo, sua particpação em outros projetos, música instrumental e outras cositas. Se liga!:

Boca Fechada: O que significa Sambanzo? O nome também está na estética das músicas? Você lançou algumas músicas em 2010, já com o nome de Sambanzo. Como as vê e hoje e em relação à Etiópia?

Thiago França: “Sambanzo” é uma palavra que eu acho que criei, é a junção de SAMBA + BANZO. A tradução de banzo é a saudade que os negros (escravos) sentiam da África. Pesquisando no Google, descobri que existe uma cidade em Moçambique chamada Rio Sambanzo Pequeno. Quando criei o Sambanzo, no final de 2009, o samba era muito mais óbvio como matriz estética e melódica. Esse projeto é um desdobramento direto do meu primeiro disco, “Na Gafieira”. De lá pra cá a formação mudou bastante e o som também. Gravamos um primeiro disco, em 2009, que está engavetado por uma série de questões. As quatro faixas do SoundCloud são parte desse disco, que tem um total de 13 faixas. Escolhi essas quatro por achar que tinham mais a ver com o que a proposta se transformou pra lançar esse single.
http://soundcloud.com/thiagosax/sets/sambanzo/

BF: Você participa de diversos projetos com grande repercussão nos últimos tempos, e como músico soma com artistas importantes do cenário atual da música brasileira. Como isso influencia em suas composições e no Sambanzo?

TF: Cara, não sei te dizer. Cada projeto que a gente realiza tem vida própria. O Metá é bem próximo do Sambanzo por ter eu e o Kiko, mas ainda assim, são vidas paralelas dentro de um mesmo universo. O trampo do Romulo não tem nada a ver com o Sambanzo, Criolo,  MarginalS, nem com o “Bahia Fantástica “do Rodrigo Campos. O trampo do Criolo não tem nada a ver com Metá nem com o do Rodrigo. O processo de gravação do disco do Gui Amabis e da CéU, também não tem a ver com o Sambanzo, Metá, Rodrigo, Romulo ou MarginalS. O próprio MarginalS, que tem eu e o Cabral, não tem a ver com o Sambanzo. Entende? De alguma forma, acho que tudo isso conversa, mas estou muito dentro pra conseguir enxergar. Talvez, só seja possível daqui um tempo.

O que influencia o Sambanzo são os caras que tocam comigo, Pimpa, Samba, Cabral e Kiko. Eu componho pro Sambanzo, pensando neles, no jeito de cada um. Não adianta você fazer um músico tocar aquilo que ele não entende ou não sente, vai sair forçado. Então acaba rolando um lance meio “tecla SAP”, foco num tipo de composição, faço as músicas pra elas funcionarem com a nossa sonoridade e com o nosso jeitão de tocar. Não sou colecionador de músicas próprias, componho conforme a minha necessidade de tocar. E sem pressa, só desenvolvo uma idéia quando acho que é realmente boa, que possa acrescentar algo único ao repertório. Deixo as idéias azeitando, às vezes, por anos. Fica na minha cabeça um groove, uma frase, etc… e uma hora sai.

Quando eu me dedicava mais ao choro, era diferente. Pra fazer a noite, você precisa de 40 a 60 músicas. Eu compunha muito, mas tudo dentro do mesmo estilo. É um pouco limitado, os caminhos de harmonia são muito rígidos, clichês, e até as variações são clichês. No fundo, as melodias se parecem muito,  não que falte inspiração, mas todas elas têm o mesmo “sabor” porque a espinha dorsal de cada uma já tá pronta. Saca? Com o Sambanzo, eu fujo disso.

E muitas vezes, o que te impulsiona a compor é algo completamente improvável. Pela correria, distância, ou por falta de envolvimento dum músico com um projeto, é muito difícil conseguir ensaiar aqui em São Paulo. Isso me deixava um pouco frustrado. Além disso, eu ficava com raiva quando um músico esquecia a pasta de partitura e não dava pra tocar algum som. Por isso eu comecei a compor nesse esquema de dois acordes, pra não precisar de partitura nem de ensaio, meio de birra, é só chegar na hora e dizer: “ó, essa aqui é um , a harmonia é dó menor e sol com sétima”. E pronto! E foi assim o primeiro show do Sambanzo com essa formação que ficou, sem ensaio, sem partitura, tudo na hora.

BF: Você mencionou que tocou choro antes de enveredar pra esse tipo de musica mais livre, distante da partitura. Essa é uma característica da musica instrumental que vem sendo feita atualmente. Quando tocava choro percebia algum tipo de preconceito dos músicos do choro em relação a essa musica mais livre? Como você enxerga essa musica instrumental feita atualmente no Brasil?

TF: Quando eu tocava choro, samba e forró, sentia uma resistência grande do pessoal contra qualquer tipo de mudança, por menor que fosse. Esse gêneros são muito formatados, tanto pelo lado musical quanto pelo lugar onde acontecem. E existe demanda (ainda bem!) O que acontece é que, a maioria dos músicos começam a trabalhar muito antes de desenvolver a sensibilidade, sem nenhum questionamento artístico, duma forma bastante mecânica, usando modelos prontos. Não acho que era exatamente um preconceito, no sentido de não gostar de nada além daquilo, muitas vezes parecia preguiça, de “mexer em time que tá ganhando”. Assim, qualquer coisa além do formatado é desnecessário ou esquisito. Eu lembro que quando mostrei o EWI (Eletric Wind Instrument, uma espécie de sax MIDI que eu uso bastante no MarginalS), pro pessoal que tocava comigo, eles rolaram no chão de rir, achavam que eu tinha enlouquecido.

 Há uns dez anos atrás, quando todo mundo resolveu gostar de samba e choro de novo, e muito graças a ascensão do forró na classe média durante os anos 90, bastava tocar. A simples execução da música era um assunto. Hoje em dia, o próprio público já sacou que só isso não dá mais. Nesses dez anos, apareceu um ou outro cara tocando bem de verdade, mas tocando coisas que já foram entendidas há muito tempo, sem grandes contribuições. No balanço geral, os grandes caras continuam sendo o Cartola, o Noel, o Nelson Cavaquinho, Pixinguinha, Jacob… A coisa vai ficando cada vez mais engessada e o público cada vez mais ávido por algo novo, não no sentido consumista da coisa, mas no sentido de que as pessoas querem ser surpreendidas.
A música instrumental mais livre ganha cada vez mais espaço por ter frescor de ritmo, estrutura, melodia, harmonia, timbre, instrumentação, texturas e sobretudo dinâmica – caráter mal explorado em outras vertentes instrumentais. Você vai do silêncio ao caos! Há uma riqueza muito maior de nuances dentro de cada música e ela é muito mais visceral por não estar atrelada a nenhum modelo. Tá muito longe do rigor técnico da academia, tá mais próxima ao sentimento, duma vontade mais legítima de tocar.
A intenção, a postura, de tocar é outra também. Você vê os músicos muito mais envolvidos pelo som, rola um transe coletivo entre quem toca e quem ouve. E a gente se leva menos a sério, tem mais espaço pra experimentação. Coincidentemente, os sons instrumentais mais interessantes são feitos por quem veio do rock, do punk… com formações não tradicionais. Aos poucos, mais gente consegue se desvencilhar dos modelos padronizados de música instrumental, e da idéia de que o bom instrumentista é aquele que consegue tocar mais notas por segundo.
No Sambanzo, a elasticidade dos arranjos me interessa muito porque dá liberdade pra todo mundo criar, há mais espontaneidade, o som ganha vida e se torna único. Quando o músico está livre, é possível extrair o que ele tem de melhor.

Ytcha – Mama Gumbo (2012)

Padrão


1. Fim do Mundo (Parte 1)
2. Mouse Hop
3. Mesmerizador
4. Borborelo
5. Fim do Mundo (Parte 2)
6. Peter Gunn
7. Fim do Mundo (Parte 3)
8. Flamingo Jazz
9. Horseypig Cymbals Orchestra
10. Paulera no Gato
11. Fim do Mundo (Parte 4)

Como mencionado em um dos últimos post’s, hoje é dia de estréias. Vamos lançar por aqui o novo disco da banda paulistana Mama Gumbo e também iniciar um nova sessão aqui no blog: uma entrevista, pra além de nós, os próprios músicos interpretarem sua obra e bater um papo sobre música e outras cositas.

Ytcha” foi lançado nos últimos dias pela própria banda e disponibilizado gratuitamente pra download. O disco soa o mais maduro da discografia do Mama e  não só per ser o mais recente, mas principalmete por sua sonoridade. Se ouvirmos o primeiro disco do grupo: Mama Gumbo, de 2004, percebemos que “Ytcha” está mais próximo do disco que deu o pontapé inicial da discografia da banda, do que do anterior ao lançamento, o Na Garagem dos Cães de 2011. E isso não soa como um retrocesso, parece mais um aperfeiçoamento da ideía inicial, como se a banda voltasse no tempo e tocasse o álbum de outra forma, com toda bagagem adquirida nos quase 10 anos de história.

“Ytcha” foi gravado nos estúdios Menino Muquito em São Paulo, mixado e masterizado por Dharma Samu e produzido pela própria banda. Os músicos do disco são: Alex Cruz (piano, orgão, sinteizador e sax tenor), Luís Jesus (baixo e baixo fuzz), Márcio Bononi (percussão) e Thiago Horácio (bateria). Particparam também os convidados: John Sales (sax alto), Clayton Martin (pratos e grunhidos), Davilym Dourado (guitarra) e João Paulo (guitarra, teclados, desconstruões e aleatoridades). A grande mistura setentista e lisérgica está mais madura do que nunca. Se liga na pedra!


Pra mais uma estréia, segue a entrevista na íntegra com o tecladista da banda Alex Cruz. Nela, ele fala um pouco do grupo, do disco e faz uma análise de como enxerga a música independente atual e também sobre a nova cena instrumental brasileira. Vale a pena conferir!

Boca Fechada: O que é Yttcha? Por que e a escolha pelo nome?

Alex Cruz: Ytcha é um disco conceitual… a palavra é um estado de espírito, um grito de guerra, um conceito que permeia todo o álbum… mas é algo livre que vc pode adaptar pra sua história, seus sentimentos, sua interpretação das músicas e de todo o álbum… gostamos de dar nomes mais livres para as músicas, para que o ouvinte possa criar uma interpretação diversa, baseada nas suas próprias experiências… acho que essa possibilidade de criação conjunta com o ouvinte é um dos grandes lances da música instrumental.

BF: Ouvindo o primeiro disco de vocês de 2004 e Ytcha, percebemos algumas similaridades e diferenças. O experimentalismo está nos dois, mas ficou perceptível que as idéias estão mais no lugar. Isso é escolha ou rolou naturalmente?

AC: É incrível, mas Ytcha é o disco que mais se aproxima do primeiro álbum de 2004… parece quevoltamos para muitas idéias iniciais, mas de um modo mais coerente e organizado, como se fosse um caminho elíptico, fazemos a volta e chegamos perto do que era mas seguindo para um outro caminho. Quando terminamos o Flaming Salt e demos início ao Mama Gumbo não sabíamos exatamente o que queríamos, esse lance de nova música instrumental era novo e ninguém ligava pra isso… tínhamos um sentimento do que iríamos fazer e tínhamos um modo operandi meio pronto, mas ainda não éramos tão conscientes disso, pode se dizer que não tínhamos o conhecimento pra seguir pelo caminho que estávamos criando…. com o tempo, com a entrada de novos integrantes, de novas experimentações a coisa foi ficando mais clara e acabei sendo uma espécie de guardião dessa idéia inicial, que apesar das mudanças sempre esteve presente, foi o que manteve o Mama ativo durante esse tempo. Hoje e com esse disco posso dizer que estamos plenamente maduros e conscientes de todos os nossos processos, isso tem a ver com as experiências acumuladas e também com os integrantes que estão nessa formação, agora temos idéias muito próximas e com uma ligação muito forte e clara do que o Mama Gumbo é. Além do mais era impossível gravar um disco do porte do Ytcha naquela época, isso do ponto de vista técnico, de instrumentação, de produção… muitas coisas mudaram no mundo e aprendemos bastante… esse não é um disco de iniciante, é algo pensado e muito bem organizado, onde conseguimos chegar num consenso entre técnica,
produção e concepção… provavelmente é o nosso melhor trabalho até agora, pelo menos do ponto de vista da expressividade de idéias… chegamos exatamente no ponto que queríamos e isso é muito difícil de conseguir.

BF:  O Mama Gumbo teve algumas formações ao longo de sua história. Como você acha que isso influenciou no som da banda?

AC: Acho que foi positivo pro Mama, a cada formação tivemos que trabalhar com novas idéias e possibilidades, lidar com músicos de diferentes vertentes e vivências. A cada integrante que entra o som muda, por que o cara acaba trazendo toda sua bagagem e isso influência no som, de um é lado bom por que temos que trabalhar com novas idéias, novas experimentações e no fim, todos aprendemos muito uns com os outros. O Mama é a soma de todas essas vontades coletivas, mas guiadas por uma idéia original que não pode ser perdida. Às vezes experimentamos mais e ficamos um pouco mais longe dessa idéia, mas depois voltamos a ela e assim vamos criando muitas possibilidades… cada disco do Mama é de um jeito, mas se vc perceber existe uma ligação muito forte entre eles, uma espécie de linha condutora, uma maneira muito própria de fazer música.

BF: A banda é uma das bandas pioneiras dessa nova cena instrumental e sempre foi independente ao extremo. Como você enxerga o cenário independente atualmente e essa nova música instrumental?

AC: É incrível ver como tudo cresceu… em 1999, 2000, fazer música instrumental independente era loucura, não havia lugares pra tocar , não havia que consumisse esse tipo de som. Acho que com a abertura que a internet trouxe, facilitando o acesso a todo o tipo de música, acabou abrindo a cabeça das pessoas (e isso não só para a música intrumental). Isso só prova que com acesso as pessoas podem gostar de coisas que antes se achava serem anti comerciais… ao meu ver a música instrumental foi a que mais cresceu com essa abertura e com essa formação de público independente que vemos agora (também decorrente da internet e do acesso a diferentes formas de cultura). Isso é novo e pode se ver claramente o ínício desse novo público, dessas novas bandas que começaram por volta de 2004 mais ou menos. É uma outra mentalidade e isso acabou culminando numa outra maneira de organização, mais ativa que a dos anos 90, onde as pessoas começaram a explorar mais as possibilidades da criação desse mercado (uma vez que o grande mercado estava ruindo). Os grupos também mudaram, se tornaram mais “profissionais “e podemos ver o quão prolífica se tornou a produção musical desde então. As bandas instrumentais matam a pau, todos os dias vemos uma banda fazendo um puta som, um puta disco, enfim, a cena instrumental cresceu e está produzindo pérolas que não perdem em qualidade pra nenhum lugar do mundo. No entanto a cena como um todo não me agrada e acho que estamos perdendo a possibilidade de criar algo novo que valha a pena, e o pior, talvez não se possa remediar mais pra frente, agora estamos com a faca e o queijo na mão mas isso pode não durar muito.
O Brasil nunca conseguiu criar uma cena independente de verdade (não no sentido da criação musical, sempre houveram ótimas bandas independentes), ninguém, nenhuma gravadora investiu na criação desse mercado que poderia ser um quinhão milionário, onde poderia haver pouco investimento e um retorno gradual, mas substancioso… mas isso nunca interessou as grandes gravadoras, eles querem apenas lucro alto e imediato. Coube a organizações menores, coletivos, ongs e afins a exploração desse campo tão fecundo. Esses grupos batalharam bastante e muita coisa melhorou em termos de divulgação, de espaço para apresentações e etc, no entanto em algum momento isso degringolou… acabou se criando um processo de exclusão ao invés do contrário, tudo passou a ser politicagem, já que se percebeu que pode se ganhar muita grana nesse processo. A maioria dos festivais não abrem processo seletivo (não há como mandar seu material por que eles não estão interessados em descobrir bandas), no único site criado pra suprir esse problema não existe uma ética e vários aproveitadores já estão agindo por lá, cobrando venda de ingressos para se poder tocar, taxa para inscrição de festivais que não se sabe se vão acontecer… no Sesc, lugar que tem um estrutura e rola uma grana existe um fosso entre o profissionalismo e o amadorismo (não há espaço pra bandas que estão se profissionalizando), e como rola dinheiro a possibilidade de inserção é bem difícil. Não há mídia que fale sobre as bandas independentes e qusase nenhum dj e nenhuma rádio toca esse tipo de música (exceto os podcasts, rádios independentes e tal), nenhum crítico se interessa aponto de escrever sobre (a não ser em pequenas notas), isso tudo por que o dinheiro não está passando por ali. Os músicos continuam sendo explorados, agora não apenas pelos donos de bar, mas por alguns coletivos que são mestres de angariar verba mas não de repassar, o descaso reina em todos os meios e em mais de um festival dito independente já vi músicos e bandas serem destratados pela produção do festival que só pensa em puxar o saco dos grandes ou médios que foram chamados pra tocar e que são (com sua imagem) o que os ajudam a captar a verba, verba essa que é gigantescamente mal dividida (um artista médio ganha 12.000, as bandas independentes que são o motivo do festival ganham 500, as vezes 1000, isso quando ganham, por que o normal não é pagar). Existe um pensamento de escambo que pode ser bom num sentido mais no final avilta o músico que vive disso e precisa ganhar pelo seu trabalho.
Resumindo eu acho que muitas coisas boas foram criadas e houve uma melhora nas condições desde o ínício dessa nova cena, mas agora muitas coisas estão deixando a coisa ruim a tal ponto que tem gente começando a sentir saudade de uma outra época anterior a isso tudo. O músico precisa ser tratado com dignidade e o primeiro passo e dar condições pra ele poder viver da sua arte. É importante pensar que o principal é a música e as pessoas que a criam e a reproduzem, temos a possibilidade de mudar muita coisa e transformar o mercado mas não acredito que seja da maneira que vem ocorrendo. A politicagem reina a tal ponto que é mais importante gastar muitos mil reais numa semana de discussões sobre a música independente do que pagar o cachê de 500 paus pra uma banda e que está atrasado em mais de 6 meses. Na verdade essa é uma longa discussão e seria necessário muito mais espaço pra dissecar tudo. Pra terminar posso dizer que o m=Mama sempre andou sozinho, mas isso por que as diversas parcerias foram sempre nocivas e visavam apenas a exploração do grupo… vamos continuar fazendo nossa arte e tocando por aí, se profissionalizando cada vez e fazendo novas parcerias (não somos fechados, pelo contrário, estamos sempre em busca de novos parceiros), por que isso é o que queremos. Acreditamos acima de tudo na música e na dignidade do artista, mas parece que dentro de todo esse processo sejamos um dos poucos a acreditar nisso.

BF:  Quais os planos com o disco lançado?

AC: Em foi lançado apenas virtualmente, a próxima etapa é angariar fundos pra poder prensar oálbum. Isso por que é mais necessário e importante a embalagem do que o conteúdo hoje em dia (não deveria ser assim já que todo mundo baixa os discos e tal, mas…). Estamos atrás de parcerias que possam nos ajudar com isso, desde a doação, a venda antecipada de cds até a possibilidade de apresentação para podermos levantar a quantia necessária. Assim que o disco sair queremos tocar em outras cidades e tentar alcançar um público maior, divulgar o trabalho e circular pelo Brasil…

Na Garagem dos Cães – Mama Gumbo (2011)

Padrão

1. Intro
2. Jazz da Fome
3. Eletroroots
4. Fela`s Hotel
5. Pradaxe
6. Paulera no Gueto
7. Cleopatra Jones
8. Flamingo Jazz

Esse é um post que funcionará como um elo. Recentemente postamos por aqui o primeiro disco da banda instrumental paulistana Mama Gumbo, uma das precurssoras da nova música instrumental brasileira e que já está há quase 10 anos na estrada. Esse é o último disco lançado pelos caras, e escolhemos ele pra esse post, pois o Mama anuncio por esses dias que está prestes a lançar seu próximo álbum, denominado “Ytcha“. Pra prepararmos os ouvidos pra essa pedra que está prestes a cair em nosso colo, está aqui o “Na Garagem dos Cães“.

Lançado em 2011, o quarto disco do grupo foi gravado em parceria e ao vivo no coletivo Sinfonia dos Cães, no bairro Japão, zona norte de São Paulo. Foi produzido por Sérgio Basseti e a arte da capa é de João Paulo. O diálogo lisérgico entre jazz, funk, afrobeat, música brasileira e latina está presente, numa mistura de músicas de álbuns anteriores, com as que estarão no próximo disco. Somzera!!

Os músicos do disco são: Alex Cruz – piano, orgão e sintetizador, Luis Jesus – baixo, baixo fuzz e baixo slide, Marcio Bononi – percussão, Ricardo Mingardi – bateria e Rodrigo Olivério – flauta, sax e efeitos.
Preparemo-nos para o “Ytcha” que em breve estará por aqui com exclusividade e estreando novas idéias para o blogue!