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Cabeça de Terra (2015) – Dharma Samu

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2015 - CABEÇA DE TERRA

1. De Dentro pra Fora, de Fora pra Dentro (Intro)
2. Sumo em Delay
3. Dharma Spirits
4. Cabeça de Terra
5. Mustache Bar
6. Valsa para Keyla
7. Septimus em Latino América
8. De Dentro pra Fora, de Fora pra Dentro
9. Monday Feelings

O Dharma Samu nasceu de uma espécie de válvula de escape dos músicos do Mama Gumbo, banda paulistana com mais de dez anos de estrada, porém, virou muito mais: pseudônimo do inquieto Alex Cruz, músico de amplas facetas e um dos precursores dessa música instrumental  meio maluca, meio contemporânea que começou a ser feita no Brasil no final do século passado, através do Flaming Salt, banda super experimental que tem dois discos lançados em meados desse período; e virou também uma banda de música autoral. É desse momento que chega o disco Cabeça de Terra, terceiro da banda e primeiro autoral, já que os anteriores são um de releituras do Led Zeppelin, e outro trilha de um espetáculo de dança.

O disco vem recheado de nove música compostas pelo próprio Dharma Samu (ou Alex Cruz). O músico também gravou quase todos os instrumentos – exceto bateria gravada por Clayton Martin (produtor, baterista do Cidadão Instigado e amigo de longa data do Dharma, e também parceiro das pirações do Flaming Salt) – e também fez a edição do álbum. Essa autonomia de trabalho fez o Dharma lançar um baita disco; os temas são bons, as músicas bem estruturadas e maduras – reflexo de um trabalho consistente do músico em quase vinte anos de carreira -, e o jazz, elemento básico das composições, se funde e é transformado pelas outras referências que carrega sua música: uma psicodelia branda que toma a alma do disco e a pegada rock das faixas, envenenando e abrindo a cabeça do ritmo negro criado no início do século passado.
Pra ouvir o Cabeça de Terra, clique aqui!

Trocamos uma ideia com o próprio Dharma Samu sobre a banda, o disco, a música, o mercado e a vida. Com ele, o papo é sempre bom e reto!

Boca Fechada:. O primeiro disco são de releituras do Led Zepellin, o segundo uma trilha de um espetáculo de dança que não ocorreu, mas que foi lançada em formato de álbum, e esse, mais recente de música autorais. Conte como funcionou esse processo todo na sua cabeça.
Dharma Samu: No primeiro disco o Dharma era um projeto paralelo, uma forma de fazer algo diferente do que nós estávamos fazendo com o Mama Gumbo na época, de explorar novas possibilidades e de tocar com uma outra galera. Pra não misturar as coisas decidimos que o Dharma seria uma banda de versões, a ideia era lançar cada disco fazendo versões de alguma banda específica entre os recessos do Mama Gumbo; nessa época eu só ficava com as teclas, não tocava sax ainda. Na época do segundo disco pintou a chance de fazer a trilha para o espetáculo de dança de um grupo de bailarinas da universidade Anhembi Morumbi. O projeto era pra ser com o Mama Gumbo, mas a galera tava cansada e com a cabeça no disco Ytcha, então eu assumi e incorporei o Dharma Samu e ele se tornou uma espécie de projeto “solo” meu, nessa época comecei inclusive a assinar os trabalhos como Dharma Samu, se tornou meu pseudônimo. Nesse disco acabei fazendo tudo sozinho, com exceção das baterias gravadas pelo Clayton Martin . Nele fiz minhas primeiras gravações como saxofonista e tive a chance de explorar sonoridades e conceitos diferentes. Essa liberdade foi importante pra eu sacar o meu potencial como compositor e como músico, abriu as portas pra diversas influências e mudou definitivamente meu jeito de ouvir, de tocar e de compor, é como se eu tivesse descoberto um novo caminho musical. Depois de toda essa descoberta achei que seria bacana tocar ao vivo com esse formato e deixar as teclas e me aventurar como saxofonista. Montamos uma formação inusitada com batera, baixo, sax e percussão, deixando de lado de propósito qualquer instrumento harmonizador como piano ou guitarra, enfim, a ideia era deixar essa lacuna como a ser preenchida e que mexesse com quem ouve e deixava as composições muito características e enigmáticas. Nesse ponto exploramos e lapidamos aquele novo conceito de composição e formação. O Cabeça de Terra, meu terceiro disco, já veio com uma idéia pronta, com o conceito montado, o único lance é que eu estava sem gente pra tocar comigo, então acabei gravando todos os instrumentos e novamente tive a ajuda do Clayton Martin nas bateras. Nele eu assumi o lance do saxofone mesmo (é tipo um disco de saxofonista rs) e desdobrei esse novo jeito de tocar que se tornou o Dharma Samu, explorando de verdade agora as composições pensadas pra sax.

BF: Você gravou praticamente todos os instrumentos (menos bateria). Isso foi opção ou falta dela? Pensou nisso antes de gravar e como funcionaria ao vivo?
DS: É bom ter essa liberdade de poder realizar tudo dentro de um trabalho, de um disco, cuidar de todos os arranjos, de gravar tudo. Os sons acabam sendo uma extensão sua, é bacana, dá pra abusar da criatividade e você não precisa brigar com ninguém (rs). O Cabeça de Terra não era pra ser um disco assim, na verdade nós já tínhamos desenvolvido um repertório que entraria no terceiro disco, mas o pessoal acabou debandando e eu arquivei esse repertório (que é ótimo pra ser tocado junto com outros músicos) e pra não ficar parado, compus novas canções, coisas mais íntimas – pode se dizer assim -, coisas que funcionam nesse tipo de gravação quase solitária, por que o Clayton Martin é um baterista muito criativo e criou coisas maravilhosas que somaram muito. Então, esse tipo de produção foi uma opção na falta de opção.

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BF: Além do Dharma Samu, como você citou, você toca e compõe pra outra banda instrumental: Mama Gumbo. Como é o processo de composição pras duas? Como você divide esse processo criativo?
DS: Parece que a coisa se divide por si só… quando crio algo sozinho ou com o grupo ela já vem bem definida pra que grupo ela vai se encaixar melhor. E tem essa coisa do instrumento, como no Mama eu toco teclados algumas coisas encaixam melhor com esse tipo de instrumento e outras funcionam melhor com o sax. E tem o lance do tempo também… tem época que a gente tá mais focado num projeto específico e acaba trabalhando mais com uma linguagem determinada, depois tira umas férias de um e começa o outro, mas as composições parecem que se separam por si só mesmo e, pelo menos na minha cabeça, elas tem uma identidade bem diferente, aí fica fácil de separar.

BF: Me fala um pouco das suas influências e o que delas você coloca no Dharma Samu. O que você acha dos rótulos que são dados pra música? Acha que a música do Dharma Samu se classifica em alguns desses rótulos sem importância?
DS: Cara, gosto de muita coisa e acho que tudo acaba influenciando um pouco.No Dharma o que fica mais evidente é a base, o clima do jazz, mas não é uma banda de jazz por que o resto vem de outros lugares como o rock, a psicodelia, o groove, enfim, gosto muito de música modal e sempre coloco isso nas composições, tem muito experimentalismo também, é difícil visualizar tudo, mas pra resumir eu vejo como uma banda que usa o clima, uma base de jazz pra colocar um monte de experimentações em arranjos modais psicodélicos.

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BF: Você acha que existe uma cena instrumental no Brasil?
DS: Uma cena eu não sei, mas existem muitas bandas bacanas fazendo música instrumental, mas elas não coexistem dentro de uma ideia única e não há um ramo, uma linha que guie essas bandas, elas fazem diferentes tipos de som e tem idéias muito diversas sobre o que é e como lidar com a música. Mesmo a galera independente é bem distante entre si. Na verdade ta rolando uma espécie de neo liberalismo na área da música (rs), a galera ta se digladiando por espaço de um jeito que eu nunca vi antes, tipo vale tudo, o lance é você se vender, aparecer, passar a perna, ter mil likes, diversas páginas, fazer cursos pra melhorar a imagem da banda, pagar assessoria de imprensa, esmurrar alguém pra ter acesso àquele ou a este espaço que no final vai te tratar como lixo, entrar naquele festival que se preocupa mais com a foto do que com o som da banda, enfim, total livre concorrência. Você pode conquistar seu sucesso!, lute!, engane!, maqueie! compre!…meritocracia total…quem lutar ou se vender, ou souber se vender melhor deve estar no topo!! E o som mesmo ninguém se importa… não há espaço pra criatividade, para identidade, não adianta você fazer um som foda e divulgar de boa, do seu jeito, respeitando o que você é, não, vc tem que entrar no MERCADO!! Fazer tudo o que se pede, você tem que lutar, se vender, ser melhor!! Ter a melhor foto, o melhor site, a melhor assessoria, a melhor caixinha de cd, enfim, como se a música fosse isso ou precisasse ser assim, no final quem aparece não é a música, é quem tem grana pra investir, se maquiar, pagar o melhor estúdio, quem tem a melhor roupa, o corte de cabelo da moda, quem mora perto do centro, quem compra lugares pra tocar, quem compra influência, quem entra na panela, quem é branco, heterossexual, bem nascido, bixo, o negócio é muito estranho pra mim rsrs. Nasci na periferia, moro na periferia, sempre fui um fudido e tudo é bem diferente pra mim, música não é essa imagem comprada, não é essa meritocracia, música não se disputa, é arte e como tal tem que ter identidade, possibilidade, diferenças, música não é de um lugar especifico, de uma cor ou de um gênero, não tem que ser enquadrada, ou vendida como souvenir que vc gosta pelo formato, é uma coisa maior que precisa de um outro olhar, de uma outra aproximação, diferente dessa que temos hoje, onde há pouquíssimos curadores ou produtores descentes que se importam com o som e não com a embalagem politicamente correta. Por isso é fácil entender por que temos roqueiros como o Lobão, como o Roger e como muitos da própria galera independente que ficam com esse discurso reaça e tal… parece meio neurastênico mas faz muito sentido pra mim e é tudo interligado – se nem na música você consegue se libertar dessas amarras do consumo, desse egoísmo do capital, do mercado, desses descaminhos da mídia, como vc pode se libertar e olhar o outro em outras áreas? O negócio é estranho rsrsrsrs. Pra terminar fico aqui com uma idéia do mestre Rauzito – Não vim aqui querendo provar nada. Não tenho nada pra dizer também. Só vim curtir meu rockzinho antigo. Que não tem perigo de assustar ninguém.

Abraços!

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Entrevista – Inti Queiroz

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Saindo um pouco da rotina das entrevistas que faço aqui no blogue, sempre perguntando principalmente sobre discos lançados por artistas brasileiros, hoje a entrevistada  não atua na música instrumental propriamente tocando, e sim, produzindo. Inti Queiroz está trabalhando com música instrumental há quase 10 anos, e seu principal projeto no segmento é o Festival PiB (Produto Instrumental Bruto) que em 2015 vai pra sua sexta edição, revelando e trazendo à tona bandas instrumentais de todo Brasil. Além do trabalho como produtora, recentemente iniciou pesquisa acadêmica, discorrendo sobre as políticas públicas brasileiras.
PiB, música instrumental e políticas públicas são o mote da esntrevista, além de uma dica da própria de um disco que acaba de sair do forno.

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Boca Fechada: Como e quando você começou a trabalhar com música instrumental? Que mudanças, se tiverem claro, notou nesse período?
Inti Queiroz: Eu comecei a trabalhar com produção de música instrumental mesmo no PIB a partir de 2006. Porém, minha relação com a nova música instrumental começou bem antes. Nos anos 90, trabalhei bastante com produção de shows e festivais em SP e Curitiba, toquei em algumas bandas (com vocal) e essa relação direta com a cena independente ajudou a perceber que estava nascendo um cena da nova música instrumental no Brasil já no fim dos anos 90.  Em Curitiba, conheci e toquei junto com diversas bandas instrumentais, principalmente por causa da cena de bandas de surf music. Desta época destaco a banda Maremotos, que inclusive acabou tocando na primeira edição do PIB em 2007.
Em 2002, voltei a morar em SP e passei a frequentar shows de bandas da nova música instrumental. Eram poucas, mas por serem bandas de amigos, acabei assistindo vários shows. Dessa época lembro de alguns projetos instrumentais do Nandinho (hoje no Martinez) e também de dois projetos do Alex Cruz (hoje Mama Gumbo e Dharma Samu), o Flaming Salt e o Effervecing Elefants. E também em mnhas idas a Porto Alegre conheci a Pata de Elefante. Essas bandas me incentivaram muito a pensar num festival. Acho inclusive que essas bandas deram o tom pra cena de hoje.

Entre 2003 e 2004 trabalhei numa grande produtora de projetos culturais e tive a oportunidade de fazer várias viagens a trabalho pelo país. Nas viagens conheci várias cenas locais de perto e percebi que as bandas instrumentais estavam pipocando por ai e que a sonoridade dessas bandas era realmente diferente da tradicional música instrumental brasileira. O que chamou atenção foi que eram bandas de vários estilos, algumas com estilos musicais indefinidos, mas tinham uma veia de música alternativa, algo entre o rock, o experimental, o psicodélico.
No fim de 2004, a produtora que eu trabalhava abriu uma concorrencia para os produtores sugerirem projetos de música para oferecer a uma marca patrocinadora. Já sabia que existia demanda para projetos instrumentais e que as leis de incentivo à cultura favoreciam esse tipo de música.  Junto a uma equipe, criamos o que seria o embrião do Festival PIB. No final das contas não deu certo, mas o projeto ficou na cabeça.
Em 2006, a secretaria estadual de cultura de SP abriu um edital para festivais de música e uma das modalidades era para festivais de música instrumental. Enviei o PIB e ele foi contemplado no edital.

BF: Como surgiu a ideia do PIB e que balanço você faz da edições que ocorreram até agora? Quais os maiores ganhos e as maiores dificuldades que notou no processo todo?
IQ
: Acho que já respondi parte dessa historia na pergunta anterior. A ideia como um todo partiu e um grupo de pessoas, bem como sua produção. Até chegar ao que foram as primeiras edições tudo foi muito pensado, desde seu conceito, seu formato, o tipo de bandas que entrariam ou não entrariam. A primeira edição foi um piloto. Tudo era novidade pra gente. Abrimos inscrições, divugamos pela internet e 44 bandas enviaram material. Foram 12 bandas, algumas que já conhecíamos e outras que selecionamos quase que no escuro. A primeira edição teve total apoio do SESC Pompéia e isso ajudou muito na produção como um todo. A equipe do SESC faz o lance acontecer. Na segunda edição tivemos um otimo patrocinador. Isso permitiu que o projeto crescesse bastante, reformulamos nossa equipe, e assim o projeto cresceu demais, talvez além do que inicialmente gostaríamos. O festival passou de 3 dias para 5 dias, de 12 bandas pra 20 bandas. O festival ganhou um especial de 1 hora na MTV que foi exaustivamente reprisado. Isso acabou refletindo nas edições seguintes, que não tivemos o mesmo apoio financeiro, mas passou a ter reconhecimento na cena indepdente como um todo. O PIB acabou ficando uma produção cara e maior do que ele buscou ser desde o início. Na quarta eidção em 2011 não conseguimos patrocinio, acabamos fazendo um festival pequeno, de apenas um dia. Isso me desanimou bastante.  A intenção era não deixar a  historia morrer, mas tudo conspirava contra.  Nesta mesma época eu comecei um mestrado na USP que exigiu dedicação total e isso também acabou me afastando um pouco da produção. Cheguei inclusive a pensar em não fazer mais o PIB. Mas a cena sempre me cobrava, pedia a continuidade. No fim de 2013, o pessoal da Casa das Caldeiras me chamou para ajudar na gestão de alguns projetos da casa e uma das questões envolvidas era fazer uma edição do PIB em 2014. Meu envolvimento na produção executiva do Tododomingo Musical em SP, projeto da casa que o PIB é parte, acabou ajudando a retomarmos o PIB em agosto de 2014. Por conta desse apoio da Casa das Caldeiras também já é certo que em 2015 o PIB terá uma edição em abril e provavelmente outra no segundo semestre. Acho que os ganhos neste processo foi da cena da nova música instrumental. Muitas novas bandas surgiram por causa do PIB. recebemos cartas e emails de bandas de todo Brasil falando isso. E também o PIB permitiu que essas bandas se conhecessem, ficassem amigas, passassem a de fato levar a cena adiante. Talvez sem o PIB isso teria sido mais difícil de acontecer. Foram mais de 54 bandas tocando nesses 7 anos. Parece pouco, mas para uma cena tão peculiar como a da nova música instrumental é bastante.

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Festival PiB – 2014 (Casa das Caldeiras)

 

BF: De uns dez anos pra cá percebi que surgiram muitas bandas instrumentais na mesma medida que muitas deixaram de existir. Você acha que realmente aconteceu isso, ou foi uma impressão errada? Se acha, vê um motivo nisso? O mercado pra música instrumental é muito restrito? Acredita que exista uma cena instrumental no Brasil?
IQ
: Claro que existe uma cena, mas é uma cena da nova música instrumental. Ela é muito diferente da cena da música instrumental tradicional. Essa cena tem peculiaridades, como  uma estética diversa, que mistura sons, que tem influências da música pop, do Jazz, do rock, da música eletrônica. É uma cena de vanguarda. O diferencial da cena mais tradicional é essa mistura e influência de outras cenas.  Se pensarmos que das mais de 400 inscrições que tivemos em 5 edições do PIB, pelo menos metade foram de bandas que tinham a estética dessa nova cena, acho que é bastante coisa. Muitas dessas bandas sumiram, mas muitas outras surgiram. Na ultima edição em 2014, tivemos 64 inscritos, destes pelo menos umas 25 bandas eram totalmente novidade pra mim e a maioria delas muito boas. Em 2014 essa cena teve uma injeção de ânimo com os novos projetos voltados para esta cena específica como o Música Muda, o Mais instrumental, e o Onda Instrumental. Curioso é que são projetos criados por bandas que tocaram no PIB e o espírito é o mesmo, fomentar a cena.

BF: Saindo um pouco do instrumental,você tem estudado e trabalhado as políticas públicas na área de cultura. Conte um pouco sobre seu estudo, e como você as políticas públicas de cultura no Brasil.
IQ
: Quando voltei pra Universidade em 2007, minha intenção era compreender como se processava a produção cultural do ponto de vista da construção dos projetos culturais, pois como produtora escrevi e aprovei dezenas de projetos culturais desde 2002. Nem pensava em partir para uma pesquisa tão profunda, mas o processo acabou me levando a isso. Acabei engatando uma carreira acadêmica, fazendo um mestrado e agora começando um doutorado sobre o tema. Meu mestrado tratou da criação dos projetos culturais. Minha dissertação propõs que o primeiro grande entrave na produção cultural brasileira era a complexidade para a criação, a escrita de um projeto e a compreensão de leis de incentivo e editais. Agora no doutorado minha tese mudou um pouco de rumo. Vou trabalhar com a construção do Sistema Nacional de Cultura com uma nova estruturação e uma nova visão das políticas culturais a partir do Ministro Gilberto Gil. Hoje estamos vivendo uma fase de transição nas políticas culturais e meu doutorado vai falar disso. Passamos por 2 fases nas politicas culturais. Até o fim da ditadura militar, as politicas culturais eram institucionais e patrimoniais, políticas pensadas de cima para baixo. O estado agindo de forma autoritária com a cultura. Depois da redemocratização nos anos 80 com a influência dos governos liberais nos anos 80 e 90 surgiram as leis de incentivo onde o verdadeiro destinador é o mercado e os patrocínios, ainda que as verbas sejam públicas. A partir de 2003 com a entrada do Gil, surge um novo olhar para as políticas culturais que passam a ser pensadas em toda sua diversidade e incentivadas debaixo para cima. O mercado começa a perder força e o estado passa a incentivar a produção cultural já existente. O programa Cultura Viva e os Pontos de Cultura são um bom exemplo desta nova visão onde não é mais o mercado que dita as regras. Essa fase de transição que vivemos hoje, depdende muito do sucesso da implantação do Sistema Nacional de Cultura, conhecido como o SUS da Cultura. Talvez os resultados só apareçam daqui uns 5 anos, pois agora estados e municípios estão tentando se adequar a isso e o processo está lento por causa da burocracia e da novidade. Outro ponto essencial do momento atual é a aprovação da  PEC da Cultura que visa aumentar as verbas de cultura e a lei Procultura que substituirá a Rouanet. Depois que estas forem aprovadas e regulamentadas estaremos definitivamente entrando na terceira fase das políticas culturais no Brasil, a fase da democratização das políticas culturais, construídas em cooperação entre Estado, conselhos, agentes culturais, artistas e público.

Mama Gumbo - Festival PiB 2009 (CB Bar)

Mama Gumbo – Festival PiB 2009 (CB Bar)

BF: Pra encerrar, dê uma dica de alguma música, artista ou disco que ouviu recentemente e te chamou atenção.
IQ
: Eu sou bem eclética musicalmente, tenho ouvido de tudo. Este ano comecei a fazer uma pesquisa da música brasileira mais popular dos anos 70 e 80. Principalmente música nordestina em geral. Estou apaixonada e cada vez mais indo em busca de artistas considerados bregas pelos puristas e conservadores.  Estou me divertindo. Na música instrumental as bandas novas que gostei bastante esse ano e ainda não tocaram no PIB foram a Bombay Groove de SP e a Experience Nebula Room do Rio Grande do Sul. Ótimas bandas! Merecem atenção.
Esse ano tivemos o lançamento do primeiro disco do Tigre Dente de Sabre, banda que acompanhei de perto por causa do PIB. O disco ” Morte Iniciática” está maravilhoso. Acho que evoluiram ainda mais o som que ja era bom. Mostraram bem porque são uma banda PIB que gosto tanto, foram do bruto ao lapidado e do lapidado a extrema vanguarda. Merecem carreira internacional e topcar em grandes festivais.  Sâo o que de mais vanguarda hoje é produzido no Brasil em termos de musica. Posso dizer que pra mim esse é o melhor disco de 2014.

CaladoNovo#2 – Gingo

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Muitas bandas instrumentais que começaram suas atividades na década passada aqui no Brasil, estão gerando outras novas bandas do estilo. Músicos que já tocam juntos em outras bandas, ou outros, que já tem certa história em grupos instrumentais (e não só), estão se unindo e começando produção nova, muitas vezes se descolando da sonoridade da “banda original”, e noutras com a sonoridade anterior sendo referência da música que está sendo criada. Um caso emblemático disso são os paulistanos do Hurtmold, que geraram ou seus integrantes se ocupam noutras bandas.

Bom, não é sobre o Hurtmold o post, já que a seção CaladoNovo tem como intuito divulgar bandas instrumentais que acabaram de sair do forno, e que ainda não tem algum disco lançado, Nesse contexto todo, apresentamos aqui a Gingo, banda formada por músicos que já tem essa tal outra história que citei. Gabriel Izidoro, Gustavo Cék, Rômulo Nardes e Hugo Cadaval formaram e/ou tocam em bandas como Bixiga 70, Joseph Touton, Batucada Tamarindo, Pipo Pegoraro, Palmeira Imperial, dentre outras.

O único material da banda lançado até agora é o vídeo que segue, e nele, percebemos que o som da Gingo carrega as referências das bandas que integrantes participam e também norteia algo novo, trazido pela mistura da cozinha batuqieira de bateria, baixo e percussão, com as possibilidade eletrônicas de pedais e sintetizadores e também das linhas de guitarra. Hoje, no Espaço Cultural Puxadinho da Praça, em São Paulo, os caras fazem o debute nos palcos, e por aqui, continuamos no aguardo de mais novidades da banda.

Mouseen (2014) – Jovem Palerosi

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1. Sou Toda Nanuk (feat Axial)
2. Descanso de Terra/Elevador Low-Fi (feat Chico Correa e Eletronic Band)
3. Deuses Mutados (feat Independência ou Marte)
4. Hiperlúdio (feat M. Takara e Filipe Doranti)
5. Leste (feat Axial)
6. Painter Joe (feat Orquestra Experimental da UFSCar)
7. Pequeno Monte Mágico (feat. Constantina)

Jovem Palerosi é músico, produtor e dj, e acaba de lançar seu primeiro disco solo: o EP Mouseen. Jovem trabalha com música, produzindo, diivulgando, discotecando ou tocando desde o meio da década passada. O primeiro trabalho que realizou dentro da música, foi apresentando o programa Independência ou Marte (programa semanal da Rádio UFSCar voltado à música independente), que foi start pro EP, já que a música Deuses Mutados foi produzida a partir de samples de artistas que se apresentaram no programa durante o período que ele dividiu a frente do projgrama. Os samples dos artistas da música independente brasileira são o norte do disco, pois além da faixa Deuses Mutados, todas as outras músicas do disco dialogam e foram compostas a partir de recortes da produçôes recentes dos novos artistas da musica brasileira.

O EP desconstrói a música eletrônica, pela gênese das músicas, e pela estética que  expõe bem as nuâncias da música feita atualmente no Brasil.
Pra ouvir o Mouseen, clique aqui!

Fiz umas perguntas pro Jovem Palerosi, sobre o Mouseen, samples, música eletônica e outros trabalhos que ele realiza.

Boca Fechada: Como foi a produção do “Mouseen” e como é seu processo de composição?
Jovem Palerosi: O Mouseen nasceu de um laboratório de linguagem que venho me dedicando há algum tempo. Foi a junção de músicas que venho trabalhando dentro de um conceito de investigar a linguagem eletrônica e o universo de samples, descontrução e processamento, sem se prender a um estilo pré-determinado. Por isso o nome, que é a base da palavra música e mosaico. Cada música tem sua história particular, mas em geral, parto de fragmentos sonoros que tenham algum sentido para mim, por alguma ligação sensorial ou emocional. A maioria dos artistas que sampleei são parceiros que me influenciam de alguma forma. Acho que essas colaborações diretas ou indiretas foram os pontos de partida para encontrar motivações e me dedicar a esse processo de composição que não tem muita regra, é mais instintivo e empírico mesmo.

BF: O EP tem bastante texturas e samples, principalmente de bandas independentes brasileiras. Como foi a escolha dos artistas e dos samples de cada um; e como você vê esse debate dos samples e direitos autorais?
JP: Faz um bom tempo que tinha vontade de produzir músicas que utilizassem samples de diferentes músicas e artistas. Pra mim o processo de gravar, editar, recortar e processar faz tanto parte de uma composição quanto uma progressão melódica, a harmonia e o ritmo. A primeira música que produzi nesse conceito e entrou no disco chama Deuses Mutados, foi um desafio pessoal de samplear alguns artistas que tinham gravado no programa Independência ou Marte da Rádio UFSCar, que co-pilotei durante uns cinco anos.
Depois que consegui unir fontes tão diferentes em uma música nova percebi que esse processo poderia ir bem longe. Na verdade o programa, o trabalho na rádio e depois em coletivos foram uma grande escola para aprender e desenvolver meus conceitos em relação a cultura digital/cultura livre, acreditar no código aberto do processo todo.
A nossa geração já se formou com as possilidades infinitas da internet, pra mim é mais do que natural todos os conceitos serem revistos depois disso. O Creative Commons deveria ser o padrão hoje em dia, para incentivar todos terem acesso aos bens culturais sem restrição nenhuma, aí cada artista decide o que mais pode ser feito. As licenças dão muitas possibilidades, pra mim, quanto mais aberto os direitos, mais possibilidades vão ser criadas e consequentemente novas obras artísticas surgirão. O Mouseen é fruto disso diretamente, de artistas que já pensam a arte sob uma nova lógica, de deixar suas músicas abertas para serem modificadas. Grande parte das músicas surgiram de convites ou idéias de parceiros que me instigaram a produzir e foi interessante ter alguns desafios naturais do processo pra me instigar. Quem tiver interesse, no meu soundcloud tem a história específica de cada música do disco.

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BF: Você tem e já realizou outros trabalhos. Queria que falasse um pouco deles, como eles influenciaram o Mouseen, e se ele reflete nos outros trabalhos.
JP: A maioria dos artistas que conheço hoje em dia tem diferentes projetos. Acho que é quase um processo natural das formas de cada um se expressar e se manter renovado. No meu caso, nos últimos anos tenho me dedicado a algumas formas de expressão que estão em diálogo direto com algumas coisas que estão no Mouseen. A maior parte de meu trabalho nascem de idéias instrumentais, com alguma relação direta ou indireta com artes visuais, trilha sonora e narrativas sensoriais. Então todos eles se contaminam o tempo todo, pois estão em um mesmo fluxo.
A meneio por exemplo é uma banda instrumental, as composições possuem um outro processo, os shows também, mas por outro lado tem cada vez mais uma relação muito próxima com algumas sonoridades eletrônicas, samples e processamento.
O trabalho que tenho como DJ e as colaborações ao vivo com alguns parceiros que admiro muito como o Felipe Julián (DJ Craca/Axial) e o Chico Correa, que inclusive são sampleados no disco, também estão em diálogo com esta linguagem que está no Mouseen, é uma forma de se aprender constantemente com cada experiência.
E com certeza o trabalho de trilha sonora acaba estando presente de alguma forma. O som e imagem já estão conectados em nossa mente, acredito que seja intrínseco que as linguagens dialoguem. Ter feito a trilha do longa-metragem Delírios de um Cinemaníaco e outras experiências em curtas, por exemplo, abriu muitas possilidades em minha mente.
E acredito que a relação com as artes visuais influenciam tanto quanto as musicais, por isso todos esses trabalhos tem uma relação forte com o campo da imagem, seja dentro do conceito dos sons, na identidade visual, na relação com os VJs ao vivo, entre outras coisas.

BF. O disco foi lançado por um site japonês. Como foi essa história? Vai ser lançado somente em plataforma digital?
JP: Quando decidi que iria lançar um EP com essas produções que tinha feito nos últimos anos achei que seria necessário distribuir de alguma forma que tivesse sintonia com a forma que penso Nos últimos 10 anos surgiram diversos netlabels que trabalham em Creative Commons, distribuindo livremente as músicas como um pressuposto político/artístico, me identifiquei bastante com isso. Pesquisando algumas possilibidades gostei muito do trabalho da Bump Foot, que é um selo japonês. Eles tem uma curiosidade grande pela música brasileira contemporânea/eletrônica, o primeiro disco do Chico Correa por exemplo é o mais baixado por lá. Assim que terminei o disco enviei para eles e acharam que tinha a ver, depois agendaram a data para o lançamento, algo simples e direto, mas muito interessante porque diminui o caminho para um público grande que já se identifica com essas sonoridades. Gradualmente vou subindo em outras plataformas e deve ganhar formato físico também. Acho que a música não pode ter nenuma barreira pra chegar nos diferentes públicos, acho que esse é o grande desafio hoje em dia.

foto: Fran Rockita

foto: Fran Rockita

BF: Mouseen é um disco de música eletrônica. A música eletrônica é algo muito abrangente e bem segmentada em estilos, nomenclaturas, etc. O que você acha dessas classificações e vê sua música em alguma delas?
JP: Acho que dá pra classificar o Mouseen como um disco de música eletrônica principalmente pelo processo de produção que tem o computador como base na composição, além, é claro, de algumas sonoridades que ele tem. Acho interessante terem as nomeclaturas para se entender certos tipos de sons eletrônicos, muita gente produz tendo um estilo em mente, mas não foi meu caso. Apesar de ter influência de muitas coisas, não pensei muito sobre isso durante a produção de cada música e acho que não consigo classificar elas juntas em algum gênero pré-estabelecido.
Na real prefiro mais pensar sobre as sensações de cada música do que sobre como classificar elas. E por ser um processo remix mutante, ao vivo por exemplo alguns sons já mudaram bastante, o improviso e as possilidades de recombinação abrem muitas possibilidades.

Entrevista – Onda Instrumental

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Onda Instrumental

O Onda Instrumental é um projeto desenvolvido e voltado para música instrumental; começou suas atividades em maio, realizando shows de bandas instrumentais, primeiramente na cidade de São Paulo (com ideia de expansão para outras cidades), e fizeram até o momento quatro eventos, todos realizadas no Puxadinho da Praça, espaço bem legal localizado na Vila Madalena.
A ideia partiu dos músicos do Chimpanzé Clube Trio, power trio,  com mais de dez anos de carreira, que viu a necessidade de realizar um evento pra divulgar a música instrumental, já que nos últimos anos tem surgido muitas bandas da música sem palavras. No próximo sábado, em sua quinta edição, o projeto aporta em outro endereço, estreando a ideia nos palcos da Serralheria, uma das casas mais bacanas de São Paulo, voltada à música independente.

Troquei uma ideia com Felipe Crocco, um dos idelaizadores e produtores do Onda Instrumental e também integrante do Chimpanzé Clube Trio.

Boca Fechada: Como surgiu a ideia do Onda Instrumental? Quem e porque capitaneou o projeto?

Onda Instrumental: Desde o fim do ano passado (2013) vinhamos conversando sobre fazer uma ação coletiva entre bandas. Pensamos em tocar na rua ou juntar algumas bandas pra fazer um festival mas queríamos algo que fosse mais permanente e não apenas alguns eventos isolados. A partir de algumas conversas com programadores de casas de show de música autoral, rolou a ideia de fazer uma parceria não só com as bandas autorais mas também com as casas que apoiam essa cena. Combinamos uma data mensal com o pessoal do Puxadinho da Praça e em seguida com a Serralheria também. Porém a ideia nunca foi fazer um projeto só do “Chimpa”. Queremos que outras bandas façam suas Ondas em outras casas, outras cidades, outros estados, outros países e nos chamem pra tocar em todas elas um dia se possível!
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BF: A ideia é realizar só shows ou outras ações também?

OI: Na Serralheria os eventos vão contar com discotecagem e feira de discos de vinil de som instrumental. Criamos uma fanpage da Onda Instrumental que pode ser uma excelente plataforma coletiva de divulgação e comunicação para esta cena. Estamos adicionando outras bandas e produtores de eventos de música instrumental que tem usado a página para divulgar seus trabalhos. Se a coisa continuar crescendo do jeito que está atualmente pretendemos fazer um festival Onda Instrumental que pode ser na rua, no SESC, no CCSP ou em outro lugar que tope abrigar o projeto.

BF: Porque vocês escolheram trabalhar sem cachê ou bilheteria pra custear a produção? Acham viável? Como as casas receberam essa proposta?

OI: Quando você trabalha no sistema “quanto vale o show” as pessoas ficam mais estimuladas a contribuir. O valor da bilheteria, mesmo sendo baixo, muitas vezes afasta um público que é muito importante pra nós. Aquela pessoa que vai uma vez só pra ver “qual que é” e acaba gostando, voltando nos outros eventos e chamando os amigos. As casas receberam muito bem a proposta. O pessoal do Puxadinho da Praça e da Serralheria tem um pensamento muito parecido com o de muitas bandas. Assim como nós a maior preocupação deles é com música e cultura, não com dinheiro. Claro que estar nessa “pela causa” não quer dizer que não temos contas pra pagar no fim do mês. Por isso mesmo preferimos nos juntar e colaborar para tentar criar condições permanentes de sustentabilidade para bandas, casas de show, mídias alternativas e todos aqueles que fazem parte da cadeia produtiva da música autoral.
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BF: Como as casas se colocaram a frente de um projeto de música instrumental? Quanto a público como vocês enxergam o público perante a esse tipo e música?

OI: As casas, assim como nós, percebem que existe uma demanda forte nesse setor. Tem muita banda boa tocando e produzindo trabalhos de alta qualidade. Muitas delas tem público cativo e uma grande capacidade de autogestão. O público sempre recebe muito bem a música desse tipo que a gente faz. Essa cena é composta por bandas e artistas que fazem música instrumental popular. As pessoas hoje em dia não esperam mais aquela coisa hermética e complicada de músicos virtuosos e tal. As bandas que participam da Onda Instrumental fazem música que poderia tocar no rádio sem problema nenhum.

BF: Vocês estão há um tempo envolvidos com a música instrumental. Como vocês veem ela desde que começaram a trampar a partir dela, e acreditam que exista uma cena instrumental?

OI: Talvez a gente esteja em um dos melhores lugares do mundo pra fazer música instrumental. Eu não sei explicar por que mas o Brasil sempre teve grandes músicos e bandas dedicadas a música instrumental e sempre foi capaz de lançar tendências na música mundial. Devemos muito a todos que vieram antes da gente e abriram os nossos caminhos. Ainda há muita coisa a ser feita pra que uma banda autoral (instrumental ou não) seja um projeto de vida sustentável no Brasil mas essa situação não é muito diferente em outras partes do mundo. Aliás nosso papel não é só tocar. Temos que conseguir criar condições de sustentabilidade para projetos culturais que não se inserem na lógica do lucro e isso se faz coletivamente em parceria com bandas, casas de música autoral, centros culturais, mídias alternativas, secretarias de cultura, lojas de discos, fabricantes locais de equipamentos, estúdios, etc.
Acreditamos que existe sim uma cena instrumental. No Brasil ela está muito bem representada por festivais como o PIB (Produto Instrumental Bruto), o Música Muda, o MIMO, entre outros, e por bandas como Huey, Camarones Orquestra Guitarrística, Martinez, Elma, Bombay Groovy, Aeromoças e Tenistas Russas, Malditas Ovelhas!, Macaco Bong, Di Bigode, Porto Duo, Hurtmold, Rumbo Reverso, Bixiga 70, Mamma Cadela, Pata de Elefante, 3 Cruzeiros, Fóssil e muitas outras mais.

BF: Indiquem uma música, disco ou artista que tem ouvido ultimamente.

OI: Tenho escutado muito o álbum recém lançado “Pelicano” da banda Constantina de Belo Horizonte – MG (http://miojoindie.com.br/tag/constantina/). Um trabalho extremamente bem feito e totalmente viajante. Muito massa!

Segue um vídeo de uma apresentação do projeto:

Chá de Pólvora na Terceira Edição do Onda Instrumental

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meneioReza o ditado que santo de casa não faz milagre, mas em certas ocasões  é bom testar o dito. Posto sempre por aqui algumas novidades instrumentais, e mesmo se tratando duma banda que faço parte, é justo compartilhar com os que acompanham o blogue as bandas novas que tão sempre pintando na área.
meneio, banda com base em na bela e interiorana metrópole de Sorocaba/SP,  recém estreou nos palcos num evento na cidade referida. O projeto é gestado há cerca de um ano e meio por Jovem Palerosi (guitarra e samples), Eduardo Rodrigues (sintetizador e samples), Adeniran Balthazar (baixo) e Zé Guilherme Aquiles (bateria). Alguns desses, com trabalhos em outras bandas instrumentais, solo e discotecagem, além de colaborarem com outros grupos e na produção de trilhas sonoras.
A estréia rendeu alguns vídeos que serão diponibilizados aos poucos. O primeiro foi lançado ontem, e é trecho da música de introdução do primeiro show, que aconteceu no ótimo Carne de Segunda, evento semanal do Rasgada Coletiva. A música sintetiza o que está na música do meneio: mistura de música orgânica com eletrônica recheada de samples e texturas.
Bueno apetite!

Bixiga 70 (2013) – Bixiga 70

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Bixiga 70 (2013) - capa1. Deixa a Gira Girá
2. Ocupaí
3. Kalimba
4. 5 Esquinas
5. Kriptomita
6. Tigre
7. Tangará
8. Retirantes
9. Isa

Um dos discos mais aguardados desse ano é o novo da banda paulistana Bixiga 70. Praticamente uma big band, o combo formado pr 10 músicos, chega com seu segundo álbum, depois do aclamado primeiro, lançado em 2011. Desde o primeiro (também homônimo) dois anos se passaram e muita coisa mudou no mundo, e também na música do Bixiga 70. Os caras fizeram turnês na Europa, shows pelo Brasil todo e participaram de dois projetos interessantíssimos: o Gil 70, encabeçado por Lucas Santtana, tocando músicas de Gilberto Gil da referida década e Saltimbancos, executando com diversas participações a obra infantil escrita por Chico Buarque.

Com esse monte de ocorridos, a música da banda não ia passar ilesa. A mudança nas composições é evidente, muito mais maduras e apontando pra outros diversos ritmos e experimentações. No primeiro disco, a influência do afrobeat é notória; outros ritmos estão ali mas, o groove delicioso criado por Fela Kuti, é célula básica das composições. O segundo, assim como o Bixiga, se abriu pro mundo! Além do afrobeat e do funk, as composições dialogam com outros diversos ritmos latinos: salsa, cumbia, merengue, etc.; africanos: jazz etíope música iorubá e também brasileiros como o samba e o baião, tudo isso regado á muita psicodelia nas linhas de guitarra e/ou sintetizador.
Discão, que pra ouvir basta clicar aqui!

Fizemos umas perguntinhas pro Bixiga, e quem teve a função de responder foi o saxofonista Cuca Ferreira. Segue:

Boca Fechada: Li que vocês fizeram cerca de 500 horas de ensaio pra gravação do disco, além de trocarem vários emails, etc. Contem um pouco como foi o processo de produção desse disco, já que vocês são em 10 músicos, que não tocam só no Bixiga. Foi rápido, lento? Foi mais virtual ou de corpo presente?
Bixiga 70: Foi totalmente de corpo presente! Na verdade boa parte do repertório do disco a gente já vinha amadurecendo no palco. A gente fez muitos shows desde o lançamento do primeiro disco, e aos poucos foi desenvolvendo e incluindo no show músicas que agora estão no segundo disco. Mas desde o começo do ano a gente se trancou no estúdio Traquitana (que é a nossa casa) e aí mandou ver nessas 500 horas de ensaio, se preparando pra gravar. Depois dessa maratona, gravamos em apenas uma semana ao vivo no estúdio.

BF: Basicamente vocês trabalharam com a mesma equipe de produção que no primeiro disco. Ainda nele, como foi a escolha dessa galera?
B70: São artistas com os quais a gente se identifica há muito tempo, e desde o primeiro disco começou a trabalhar junto. MZK, que fez a arte, é DJ, super envolvido com o tipo de som que a gente gosta, e depois da capa que ele fez pra gente no primeiro disco, a gente jamais questionou a ideia de chamá-lo de novo. Mesma coisa com o Victor Rice, que fez a mixagem. Há várias outras pessoas que são envolvidas com a gente e foram fundamentais para esse disco, mas na hora de gravar éramos apenas os 10 no estúdio.
Bixiga 70 (2013) - encarte (frente)

BF: Lendo artigos desde o lançamento, e ouvindo tanto o segundo como o primeiro disco, todos exaltam, e é perceptível no segundo, maiores referências de ritmos e timbres. (Achei-o muito mais psicodélico que o primeiro). Que diferenças vocês notaram enquanto produziam e depois de gravado de um álbum pro outro?
B70: Tem diferenças que decorrem do processo evolutivo natural tanto dos músicos individualmente como nosso como banda, de tocar mais tempo junto, e principalmente de trocar mais referências e experiências. Mas a principal diferença que a gente queria imprimir nesse trabalho era levar a energia que a gente conseguiu chegar no palco para o disco. A gente é uma banda de palco, de tocar pra galera dançar. Queríamos muito levar isso pro disco.

BF: No primeiro disco vocês fizeram um versão de “Desengano da Vida” do Pedro Santos e nesse, “Deixa a Gira, Girá” dos Tincoãs, além de tocarem ao vivo “A Morte do Vaqueiro” do Luiz Gonzaga. Como vocês escolheram essas músicas, e perceberam que “dava caldo” pra vocês; e no caso das gravadas, como foi o processo de direitos autorais? (“Deixa a Gira, Girá”, é de domínio público, se não estou enganado)
B70: “Deixa a Gira Girá” é domínio público, mas nós nos inspiramos muito no arranjo dos Tincoãs. Por isso fizemos questão de entrar em contato como Mateus Aleluia, pedir autorização e pagar os direitos, tudo na maior humildade e correção possível. Com o Pedro Santos foi a mesma coisa, mas como ele já não está mais aí, ficamos muito felizes de poder ter conhecido a filha dele, que é super envolvida com o legado do pai, e que abençoou nossa versão.
São músicas e artistas que frequentam nossos encontros desde que os primeiros músicos começaram a se juntar para montar a banda, então sempre foram escolhas fáceis para a gente. E Luiz Gonzaga é um dos maiores artistas do mundo de todos os tempos. A gente levantou esse som para homenageá-lo quando tocamos na Virada Cultural de 2012, porque era o ano do centenário dele. Daí não deu mais pra tirar do show.
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BF: Deixando um pouco de lado o disco, contem sobre a experiência de fazer os projetos “Gil 70”, e “Saltimbancos”. Curtiram o resultado? Acham que esses dois trabalhos influenciaram na produção do segundo disco?
B70: Gil 70 nasceu de uma ideia do Lucas Santtana, que é um artista que a gente sempre admirou e virou um grande irmão de som nosso. Os Saltimbancos vieram a partir de uma ideia da Beth Moura, que é nossa produtora, e envolveu também grandes artistas (Anelis (Assumpação), Alzira E., Mauricio Pereira, Skowa e Andrea Bassit).
Curtimos muito o resultado, e acho que foram projetos importantes para desenvolvermos mais entrosamento na hora de levantar os arranjos, e aos poucos fomos ousando mais tambem.

BF: Vocês lançaram o disco em três formatos: mp3, cd e vinil. Qual funciona melhor? O download em que as pessoas contribuem, funciona?
B70: Tudo funciona e tudo isso é necessário. O download está disponível gratuitamente em nosso site (como no primeiro disco), disco completo em alta qualidade, com capa, encarte, ficha técnica, etc.
Acreditamos nisso, e com a atual fragmentação de mídia, a ideia é ter o maior número de pessoas conhecendo o trabalho. Para isso o download é fundamental. Acho que hoje funciona assim: a pessoa conhece pela internet, se gosta vai ao show. E se gosta do show compra o disco (vinil ou cd). A gente mesmo é adepto do vinil.