No Agreement (1977) – Fela Kuti

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Fela Kuti - No Agreement - 19771. No Agreement
2. Dog Eat Dog

Em algumas ocasiões aqui no blogue, demos licença à diversas bandas ou artistas que em seus discos instrumentais colocam palavras nas composições. Seja um poema, gritos, canção ou fazendo a vez de um instrumento, as palavras por aqui nunca silenciaram. Pensando nisso, e com uma vontade imensa de homenagear um dos maiores da música no século XX e que faria 75 anos hoje, pedimos permissão mais uma vez pra extrapolar a música sem palavras.
Não seria momento melhor, já que a licença é pra postar um disco do nigeriano Fela Kuti, criador do afrobeat – batida que mistura jazz, juju music, highlife  e música iorubá , dono de uma discografia fantástica e com uma vida política de luta contra o poder instituído pelos militares africanos e em favor da liberdade. A música de Fela é essencilamente instrumental; as composições (geralmente com mais de 10 minutos) tem um tema principal tocado em um loop hipnotizante, onde as melodias vão sendo desconstruidas pelos diversos músicos e instrumentos que formavam (inicialmente) a Afrika 70, e depois, a Egypt 80, bandas que acompanharam Fela.

Como comentei, a discografia do músico, produtor e arranjador é gigante, chegando em alguns anos a lançar mais de três discos. Os discos tinham poucas músicas, dando de ombros ao tempo curto que usualmente elas tinham, e além disso, Fela não costumava repetir as músicas em seus shows, tendo que sempre compor muito.  Tocavam praticamente todos os dias na República Kalakuta (onde moravam banda, dançarinas e amigos de Fela), compunham os temas, tocavam-nos em shows e já gravavam. Pra época, o tamanho da banda e as condições técnicas, com certeza deviam ensaiar muito tempo, pois na audição dos discos, percebemos uma banda totalmente entrosada, pulsando…
Fela em suas músicas sempre discursava, principalmente denunciando o que ocorria na África dos anos 70, instável e turbilhão político devido ao momento de descolonização européia que o continente viva na época. Os discuros são fortes, sem massagem, colocando o dedo na cara dos governantes e conclamando uma África livre, do povo. Isso causou muito problema, já que Fela foi preso algumas vezes e teve sua casa (a República Kalakuta) invadida e destruída pelo governo nigeriano, em 18 de fevereiro de 1977, mesmo ano que o álbum No Agreement foi lançado.

Pra não passar em branco a data de seu nascimento, escolhi o disco de 1977, onde temos duas músicas: No Agreement (mesmo nome do álbum), e Dog Eat Dog, inteira instrumental. Assim, como mais de 50% do disco instrumental (…) homenageamos o grande Fela e continuamos com a música instrumental mandando prender e soltar por aqui.
A licença foi dada e com enorme satisfação o disco está posto. Pra ouvir essa pedrada, clique aqui!

Cabeças que fazem Cabeças #3 – por Marco Nalesso

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Terceira sessão do Cabeças que fazem Cabeças, sempre convidando alguém ligado à música de alguma forma pra debulhar um álbum instrumental pra gente. Pra esse, convidamos o músico Marco Nalesso, natural de Santo André, e que conta com uma bela bagagem musical, seja fuçando (prefiro esse termo à pesquisador) e/ou desbravando discos e músicas pelo mundão real ou virtual; ou também somando em uma das várias bandas que toca ou colabora (coloque nessas várias, algumas ótimas instrumentais como Marco Nalesso e a Fundação e a recém criada Habitante), além de músico, colabora também como produtor.

Percebo muita semelhença nos gostos musicas entre nós; essa é uma das razões pra desenvolver a ideia de trazer convidados pra falar sobre um disco de sua escolha. Além disso, nós nunca (e felizmente!) conheceremos tudo da música, já que sua existência é enorme e as variações em que ela foi produzida não cessam.
A intenção do blogue sempre foi aguçar a curiosidade minha e das pessoas em conhecer música boa (mesmo isso sendo relativo à cada qual) e descobrir e me apaixonar ainda mais pela música. O disco escolhido pelo Marco Nalesso vai de encontro a isso, pois eu não conhecia a obra do artista escolhido por ele, e à primeira audição me deu mais vontade de fuçar, apenas fuçar…

The Planets (1976) – Isao Tomita

2.0.1

Diretamente do planeta mais distante do universo, Isao Tomita, viajante e tripulante da nave mãe chama The Planets.
O disco foi lançado em 1976, todas as músicas são nomeadas de planetas e possuem orquestra de barulhos e efeitos, e programações universais onde qualquer chamado é vida nessa imensidão do universo.
O disco mostra uma historia passando por todos os planetas e neles há sempre uma mensagem: Isao captou momentos de euforia, alegria, tristeza, emoção e todos outros que passamos durante nossos dias aqui.

The Planets, são sete movimentos que Gustav Holst (1874, compositor inglês, arranjador e professor) compôs mais ou menos na época da Primeira Guerra Mundial. A intenção de Tomita parece ter sido feito sob ” idade do espaço “, versão da obra de Holst, tanto porque cada movimento representa um planeta (Marte ,Vênus Mercúrio, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno), nesta ordem:

1. Mars, the Bringer of War (Marte, Portão da Guerra)
2. Venus, the Bringer of Peace (Venus, Portão da Paz)
3. Mercury, the Winged Messenger (Mercúrio, o Mensageiro)
4. Jupiter, the Bringer of Jollity (Júpiter, Portão da Alegria)
5. Saturn, the Bringer of Old Age (Saturno, Portão dos Mais Velhos)
6. Uranus, the Magician (Urano, o Mágico)
7. Neptune, the Mystic (Netuno, o Místico)

Isao Tomita lançou mais de 20 discos e participou de diversas trilhas sonoras para filmes futuristas; FUTURISMO defini muito todo trabalho do mestre das teclas. Ouvindo o disco você consegue imaginar e sentir todos os ambientes inexplorados por Tomita.
Um belo desenho na capa do disco, uma espaço nave com um habitante descendo pela luz clara e amarela sobre a imensidão escura do nosso universo.

A aproximação de Tomita e Holst vale mais como uma exploração das possibilidades da música eletrônica; trabalhando em recursos de música clássica e adaptando-a às possibilidades do sintetizador, não tendo o poder militar de um orquestra sinfônica para desencadear o inferno necessário nos ouvidos da platéia.

Pra ouvir o disco, clique aqui! Boa viagem amigos….

A Espetacular Ataca Novamente! (2013) – A Espetacular Charanga do França

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capa charanga - arte kiko dinucci1. Hasta la Cumbia
2. Cumbia, Cumbia
3. Raggaxixe
4. Pedra do Rei

Já comentaram e me perguntaram se o blogue era só de música instrumental brasileira. Disse que não, mas numa conta rápida vi que mais da metade dos discos postados até aqui (quase 300) são da fértil música instrumental brazuca, e de todas as épocas. Tento sempre postar discos gringos também, mas por um “defeito” meu posto mais nacionais, porque os ouço com mais afinco e procuro sempre regar minhas raízes. Além disso, de uns tempos pra cá, a música brasileira nos deu diversos frutos sem voz, de muita qualidade e de vários gëneros e regiões. Um dos músicos mais atuantes não só na música instrumental, chega com mais um bela obra da sua discografia: o saxofonista Thiago França, acaba de lançar o primeiro disco do projeto A Espetacular Charanga do França, o A Espetacular Ataca Novamente!, lançado a pouco.

Thiago França, nos variados projetos que integra, ou colabora como músico e produtor tem uma linguagem distinta no saxofone, instrumento que sempre se tem um pé atrás, devido às melodias chatas popularizadas por Kenny G, ou simplesmente pelo fato do sax, muitas vezes, apenas fazer o acompanhamento, cabendo a ele papel secundário em muitas composições. O sax de França caminha em sentido contrário, muitas vezes envenenado por pedais e criando texturas e melodias que distoam do comumente ouvindo. A Espetacular Charanga do França é um projeto estreado em 2012 pelo músico, quando esquentou algumas noites do carnaval paulistano. Simplificadamente, é música pra dançar!, apimentadas em ritmos negros latinos: cumbia, salsa, merengue, ragga e maxixe, presentez nas 3 primeiras faixas do disco; e na última: Pedra do Rei, o lado mais psicodélico e experimental do músico fica evidente, trazendo o jazz como referência e nos fazendo lembrar do bombástico MarginalS, em que participa.
Pra ouvir essa “Espetacular Charanga”, clique aqui!

Bixiga 70 (2013) – Bixiga 70

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Bixiga 70 (2013) - capa1. Deixa a Gira Girá
2. Ocupaí
3. Kalimba
4. 5 Esquinas
5. Kriptomita
6. Tigre
7. Tangará
8. Retirantes
9. Isa

Um dos discos mais aguardados desse ano é o novo da banda paulistana Bixiga 70. Praticamente uma big band, o combo formado pr 10 músicos, chega com seu segundo álbum, depois do aclamado primeiro, lançado em 2011. Desde o primeiro (também homônimo) dois anos se passaram e muita coisa mudou no mundo, e também na música do Bixiga 70. Os caras fizeram turnês na Europa, shows pelo Brasil todo e participaram de dois projetos interessantíssimos: o Gil 70, encabeçado por Lucas Santtana, tocando músicas de Gilberto Gil da referida década e Saltimbancos, executando com diversas participações a obra infantil escrita por Chico Buarque.

Com esse monte de ocorridos, a música da banda não ia passar ilesa. A mudança nas composições é evidente, muito mais maduras e apontando pra outros diversos ritmos e experimentações. No primeiro disco, a influência do afrobeat é notória; outros ritmos estão ali mas, o groove delicioso criado por Fela Kuti, é célula básica das composições. O segundo, assim como o Bixiga, se abriu pro mundo! Além do afrobeat e do funk, as composições dialogam com outros diversos ritmos latinos: salsa, cumbia, merengue, etc.; africanos: jazz etíope música iorubá e também brasileiros como o samba e o baião, tudo isso regado á muita psicodelia nas linhas de guitarra e/ou sintetizador.
Discão, que pra ouvir basta clicar aqui!

Fizemos umas perguntinhas pro Bixiga, e quem teve a função de responder foi o saxofonista Cuca Ferreira. Segue:

Boca Fechada: Li que vocês fizeram cerca de 500 horas de ensaio pra gravação do disco, além de trocarem vários emails, etc. Contem um pouco como foi o processo de produção desse disco, já que vocês são em 10 músicos, que não tocam só no Bixiga. Foi rápido, lento? Foi mais virtual ou de corpo presente?
Bixiga 70: Foi totalmente de corpo presente! Na verdade boa parte do repertório do disco a gente já vinha amadurecendo no palco. A gente fez muitos shows desde o lançamento do primeiro disco, e aos poucos foi desenvolvendo e incluindo no show músicas que agora estão no segundo disco. Mas desde o começo do ano a gente se trancou no estúdio Traquitana (que é a nossa casa) e aí mandou ver nessas 500 horas de ensaio, se preparando pra gravar. Depois dessa maratona, gravamos em apenas uma semana ao vivo no estúdio.

BF: Basicamente vocês trabalharam com a mesma equipe de produção que no primeiro disco. Ainda nele, como foi a escolha dessa galera?
B70: São artistas com os quais a gente se identifica há muito tempo, e desde o primeiro disco começou a trabalhar junto. MZK, que fez a arte, é DJ, super envolvido com o tipo de som que a gente gosta, e depois da capa que ele fez pra gente no primeiro disco, a gente jamais questionou a ideia de chamá-lo de novo. Mesma coisa com o Victor Rice, que fez a mixagem. Há várias outras pessoas que são envolvidas com a gente e foram fundamentais para esse disco, mas na hora de gravar éramos apenas os 10 no estúdio.
Bixiga 70 (2013) - encarte (frente)

BF: Lendo artigos desde o lançamento, e ouvindo tanto o segundo como o primeiro disco, todos exaltam, e é perceptível no segundo, maiores referências de ritmos e timbres. (Achei-o muito mais psicodélico que o primeiro). Que diferenças vocês notaram enquanto produziam e depois de gravado de um álbum pro outro?
B70: Tem diferenças que decorrem do processo evolutivo natural tanto dos músicos individualmente como nosso como banda, de tocar mais tempo junto, e principalmente de trocar mais referências e experiências. Mas a principal diferença que a gente queria imprimir nesse trabalho era levar a energia que a gente conseguiu chegar no palco para o disco. A gente é uma banda de palco, de tocar pra galera dançar. Queríamos muito levar isso pro disco.

BF: No primeiro disco vocês fizeram um versão de “Desengano da Vida” do Pedro Santos e nesse, “Deixa a Gira, Girá” dos Tincoãs, além de tocarem ao vivo “A Morte do Vaqueiro” do Luiz Gonzaga. Como vocês escolheram essas músicas, e perceberam que “dava caldo” pra vocês; e no caso das gravadas, como foi o processo de direitos autorais? (“Deixa a Gira, Girá”, é de domínio público, se não estou enganado)
B70: “Deixa a Gira Girá” é domínio público, mas nós nos inspiramos muito no arranjo dos Tincoãs. Por isso fizemos questão de entrar em contato como Mateus Aleluia, pedir autorização e pagar os direitos, tudo na maior humildade e correção possível. Com o Pedro Santos foi a mesma coisa, mas como ele já não está mais aí, ficamos muito felizes de poder ter conhecido a filha dele, que é super envolvida com o legado do pai, e que abençoou nossa versão.
São músicas e artistas que frequentam nossos encontros desde que os primeiros músicos começaram a se juntar para montar a banda, então sempre foram escolhas fáceis para a gente. E Luiz Gonzaga é um dos maiores artistas do mundo de todos os tempos. A gente levantou esse som para homenageá-lo quando tocamos na Virada Cultural de 2012, porque era o ano do centenário dele. Daí não deu mais pra tirar do show.
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BF: Deixando um pouco de lado o disco, contem sobre a experiência de fazer os projetos “Gil 70”, e “Saltimbancos”. Curtiram o resultado? Acham que esses dois trabalhos influenciaram na produção do segundo disco?
B70: Gil 70 nasceu de uma ideia do Lucas Santtana, que é um artista que a gente sempre admirou e virou um grande irmão de som nosso. Os Saltimbancos vieram a partir de uma ideia da Beth Moura, que é nossa produtora, e envolveu também grandes artistas (Anelis (Assumpação), Alzira E., Mauricio Pereira, Skowa e Andrea Bassit).
Curtimos muito o resultado, e acho que foram projetos importantes para desenvolvermos mais entrosamento na hora de levantar os arranjos, e aos poucos fomos ousando mais tambem.

BF: Vocês lançaram o disco em três formatos: mp3, cd e vinil. Qual funciona melhor? O download em que as pessoas contribuem, funciona?
B70: Tudo funciona e tudo isso é necessário. O download está disponível gratuitamente em nosso site (como no primeiro disco), disco completo em alta qualidade, com capa, encarte, ficha técnica, etc.
Acreditamos nisso, e com a atual fragmentação de mídia, a ideia é ter o maior número de pessoas conhecendo o trabalho. Para isso o download é fundamental. Acho que hoje funciona assim: a pessoa conhece pela internet, se gosta vai ao show. E se gosta do show compra o disco (vinil ou cd). A gente mesmo é adepto do vinil.

Apaixonado (1973) – Baden Powell

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capa1. Casa Velha
2, Alcântara
3. Igarapé
4. Estórias de Alcântara
5. Waltzing
6. Lembranças
7. Abstrato
8. As Flores
9. Balantofe
10.Brisa do Mar

A música brasileira está repleta de casos em que artistas fizeram mais sucesso fora do que no próprio país. Um exemplo dessa anomalia é o vilonista e genial Baden Powell, carioca nascido na década de 30, ano em que começava a ditadura Vargas no país, e período em que o samba ainda sofria na mão dos moralistas institucionalizados. Baden apareceu junto à bossa nova, movimento nascido em fins da década de 50 e que tomou grande proporção e fama na década seguinte. Detalhe interessante é que a bossa nova – mesmo com muito sucesso no Brasil – foi um dos movimentos musicais que mais aconteceu a tal anomalia do “santo de casa não faz milagre”.

Baden inicia-se junta a bossa mas, é um dos responsáveis por transformá-la e reiventá-la. Isso ocorre na segunda metade da década de 60, onde a denominada “segunda geração” do movimento (Eumir Deodato, Hermeto Pascoal, Edu Lobo e  Baden, dentre outros) conduziram-na à outros caminhos, intermediando um papo “mui bueno” com outros ritmos. Em Apaixonado, disco de 1973 (de um Baden bem maduro) isso fica evidente, pois os temas compostos por ele, vagam de pés firmes por toda música do mundo. Em toda singeleza que lhe é peculiar, notamos muita música brasileira: samba, frevo e bossa (claro!), envenenada pela música negra do mundo: o jazz, já existente em sua obra, pitadas de rock e blues, e dos recém nascidos soul e funk. (Interessamte notar a presença desses ritmos na música de Baden, mostrando quão antenado era um dos maiores guitarristas brasileiros).

Pra ouvir esse belíssimo disco. clique aqui! 

Cabeças que fazem Cabeças #2 – por Leandro Conejo

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Seguindo os trabalhos de renovação e novos ares do blogue, há cerca de uns 20 dias estreamos a série Cabeças que fazem Cabeças, que consiste em convidar alguém ligado à música de alguma forma, pra falar sobre um disco instrumental de sua preferência.
Pra segunda vez da sessão, convidamos o músico argentino Leandro Conejo, guitarrista que toca numa das bandas argentinas mais brasileiras  da atualidade: o Falsos Conejos, power trio de música moderna, que já lançou dois registros e ano que vem, chega com trabalho novo.
Leandro é amigo há alguns anos e sempre trocamos referências musicas (ou não) quando nos encontramos ou conversamos. Nada mais justo, colocar essas conversas em prática.
Pra vez dele aqui no blogue, foi escolhido um das obras mais fodas da história da música mundial. A grande: A Sagração da Primavera do russo Igor Stravinsky. Lá em 2009, no início dos trabalhos do Boca Fechada, a “Sagração” foi feita mas, como os anos passam, e a memória é curta, ela aparece aqui novamente, escancarada minuciosamente pelo belo relato de Leandro Conejo.
Vamos a ela, então!:

A Sagração da Primavera (1913) – Igor Stravinski – por Orquesta Nacional de Gales BBC, dirigida por David Atherton

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A Sagração da Primavera (original em francês , Le Sacre du printemps ) é um obra em dois atos (L’ adoração de la terre e Le sacrifício)), com música do compositor russo Igor Stravinsky e coreografia de Vaslav Nijinsky . É uma das obras mais revolucionárias da história da música clássica, por suas inovações em harmonia , ritmo e timbre . Foi realizado pela primeira vez em Paris em 29 de maio de 1913.

Na minha opinião , este trabalho é o início da época musical em que vivemos . É como um dossiê que apresenta as várias caminhos que a música transitou ao longo dos próximos 100 anos.

Digo isto pensando em dois planos diferentes . A mais óbvia e concreta , que é a influência sobre os compositores que ouviram o trabalho, tanto acadêmicos, populares de vários gêneros como jazz (Charlie Parker e Miles Davis), no Rock  (Jimi Hendrix) e Tom Jobim. Em outro nível, mais subjetivo e menos óbvio (que veio com base unicamente em conjecturas) , está relacionado com a maneira pela qual as principais características deste trabalho são refletidas na música que veio depois dele. Talvez isso foi premeditado; um prognóstico de Stravinsky com base nos resultados de uma análise da história da música e aposta posterior sobre os rumos que ela tomaria nos anos seguintes , ou apenas uma coincidência, perceptível por alguém como eu, que tem “o jornal na segunda-feira ” em suas mãos .

Vou destacar três características muito fortes e marcantes :

1: construção e destaque arquitetônico de ritmo e percussão.

2: A alegação da música popular.

3: A busca por novos timbres , alheio aos costumes de cada instrumento.

1 . Sobre o ritmo e percussão

Uma das características mais fortes de ” Consagração” é a importantancia , peso e densidade do ritmo. Até então, a música de tradição escrita, deu mais importância para a melodia e posteriormente a harmonia. O ritmo e seus principais aliados  ( osinstrumentos de percussão) foram relegados a uma função decorativa. Várias passagens da obra de Stravinsky são simplesmente golpes, quase como se fossem uma bateria de rock ou loops de música eletrônica, sem qualquer tipo de conteúdo melódico. Em outras ocasiões, há diálogo entre os diferentes grupos da orquestra, nesse diálogo, cada grupo toca uma frase curta soa isolado ou uma nota só, porém são extremamente valiosos quando todas essas frases se juntam para criar uma rede polirrítmica e polifônica complexa . Anos mais tarde, os músicos afro-americanos, deram o nome de “groove” para este conceito, elemento onipresente e essencial em toda a música do século XX. Do free jazz ao funk, do heavy metal ao minimal techno, bossa nova, samba e tango.

2. Na música popular

Outra característica é que , Stravinsky (influenciado pelas idéias de seu mestre Rimsky Korsakov) usa velhas melodias folclóricas russas como mot para o seu trabalho. Ou seja, música clássica estava fazendo um aceno para a música primitiva e pagã “das tribos”. Feito que se opôs a um processo de séculos , que vem de Bach, em que a música era o mais celestial possível, longe da terra, do suor e do sangue, como se fossem anjos. A coreografia é um exemplo muitivoo visual deste , em que os bailarinos apoiam as solas dos seus pés no chão, ao contrário do dogma do balé clássico em que todo mundo tem que andar na ponta dos pés , como se fossem anjos.
Este fato, além de ter relevância puramente musical, tem muito valor no aspecto cultural e sócio-econômico  da música do século XX. A criação e posterior sucesso comercial das gravadoras, e com eles, a música popular criada por compositores sem vínculo com o poder da igreja ou da nobreza, talvez seja o exemplo mais claro .

Até o século XIX , a música criada pelo compositor de formação clássica era ouvida pela maioria das pessoas. Estes compositores usavam o sistema tonal, onde uma nota regia as demais e todas as notas que não eram o mais importante, existiam em função da nota tônica, algo parecido com a “nota Deus” ou “nota Rei”.
No entanto, no século XX , a música que a maioria das pessoas ouvem (e consomem), vem de criadores não clássicos: The Beatles, Carlos Gardel, Tom Jobim, para dar alguns exemplos . Esse processo gerou que, aos poucos, as notas começaram a desfrutar de alguma igualdade, pois os compositores tiveram um pouco mais de liberdade musical. O jazz modal dos anos 50 e 60 , a música pop dos anos 80, são exemplos claros (mas que nao chegam a ser tão radicais como a anarquia da musica dodecafônica ou serial), mas sim, mais perto de uma espécie de democracia representativa. Além disso, a preocupação que tinham os compositores de não passar pela aprovação de seu patrono (sempre membros nobres ou poderosos da igreja ) hoje não existe, mas sim, se o mercado irá aceitar, ou seja, o trabalho deve ser aprovado pelo “povo” através do seu representante, o gerente de um gravadora.

3. Os timbres

Stravinsky começa seu trabalho com um instrumento que nunca havia assumido o papel de solista na orquestra, o fagote . Além de dar-lhe um papel de protagonista, ele deu ao instrumento um novo registro, executando melodias não comuns a ele. Essa escolha gerou um novo timbre na orquestra, que, às vezes, parece sons de guitarras e sintetizadores, tão comuns na música popular dos 100 anos que se seguiram a estréia de ” The Rite ” .

Esses três recursos, juntamente com outros, como o uso de “acordes híbridas” (acordes que não era nem maiores nem menores), fez esta peça revolucionária, alguns anos antes da eclosão da Revolução Russa .
Stravinsky usou pela primeira vez, recursos que agora soam familiar para nós, e deixou claro que esta obra nada tem nada a ver com o esnobismo de muitos artistas que buscam criar revoluções estéticas vazias.
E acima de tudo, feita esta análise fria, Stravinsky conseguiu capturar com genialidade e maestria emoções como o medo e a serenidade, alegria e ansiedade. E, do mesmo modo que acontece em nossas vidas, em questão de segundos e, imprevisivelmente, estes sentimentos se modificam e misturam-se, sem se importar se são, ou não, antagônicos.

Pra ouvir essa grande obra, clique aqui!

Esse vídeo é a filmagem de um ballet, dirigido por Pier Boulez:

Também recomendo a leitura de “Poesia Musical“, um livro baseado na palestra que o compositor estava em Harvard, que aborda vários de seus conceitos estéticos .

Além disso, este documentário :
Keeping Score : Sagração da Primavera de Stravinsky





Chorume da Alma (2011) – Pig Soul

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Capa1. Intro (11)3142212X
2. Chorume da Alma
3. Koentro
4. Raño
5. Romanza
6. L’Amour
7. Wa A Api Vini
8. Cocktail
9. Epílogo
10. Talking Waves

O release do Pig Soul, banda residente de São Paulo capital, já diz tudo: “Vale tudo. Da improvisação livre à nerdice dodecafônica e espectral. Tudo com a veia roquenrol dos integrantes, ligados ao Progressivo e ao Metal. É jazz, é salsa, é louco. Acima de tudo é Rock!” Resume bem: é louco e acima de tudo é rock! Um rock pesado, recheado de experimentações da primeira à última faixa. Em tempos que as bandas de rock tem postura e produção mais preocupadas com a imagem que a sonoridade, o Pig Soul leva o rock à outros terrenos, digamos que mais…fritos! Viaja com o jazz, rebola com o samba e mexe com a salsa mas, sem perder a ternura.

A banda paulistana é formada por músicos experientes que tocam ou tocaram (juntos ou não) em outros projetos mui interessantes – o Eletrogroove, banda formada em Campinas e que tem dois integrantes que hoje formam o Pig Soul é uma delas. Em 2011, lançaram seu único registro até então, o disco Chorume da Alma. As composições são densas e vagam com tranquildade nos ritmos citados. O “espírito de porco” de Daniel Brita (guitarra e trombone), Gustavo Boni (baixo), Luiz André “Gigante” (bateria) e Rafael Montorfano “Chicão” (sintetizador e piano) incorporou e remexeu a caxola no rock.
Pra ouvir essa pedrada, clique aqui!