Tupi Novo Mundo (2013) – Iconili

Padrão

tupinovomundo

1. O Rei de Tupanga
2. Solar
3. Arei
4. Mulato
5. Búfalo

Dando início em mais um ciclo – e já que o mundo não findou-se -, vamos retomar os trabalhos por aqui, pois, além de muita coisa boa que foi lançada ano passado, ter ficado de fora dessas páginas, já tem muita coisa nova e boa surgindo e reverberando pela rede.  Uma  delas foi lançada há quase uma semana apenas para audição e hoje, disponibilizada pra download. Trata-se do EP Tupi Novo Mundo dos mineiros do Iconili. O Iconili é um projeto que existe desde 2007, e durante esse período houveram diferentes formações e músicos  participando dele; atualmente conta com 11 músicos da atual cena de Belo Horizonte.

Ouvindo o disco nas primeiras vezes, a referência mais aparente é o afrobeat, e logo bandas como Bixiga 70, The Budos Band, etc., vem a mente. Porém, se repararmos e ouvi-lo atentamente e por completo, nota-se também outros elementos da música negra, como a música etíope, jazz, funksoul, dub e também musica afro brasileira, como samba e baião.  Além disso o afrobeat, segundo afirmação certeira dos própios integrantes, é mais que un gênero musical. Ele é todo um contexto de atuação política que existiu na África nas décadas de 60 e 70 e que lutava contra a opressão européia estabelecida. Reduzir a música do Iconili ao ritmo imortalizado por Fela Kuti e outros nomes também fora da Nigéria, como Vis-a-Vis, é no mínimo ser reducionista e anacrônico.

Tupi Novo Mundo é um espelho do grande caldeirão sonoro de qualidade e representativo do que sempre a música brasielira foi.
O disco esta disponível no site da banda pra download, e pra ouvi-lo, clique aqui!


Pra iniciar melhor ainda 2013, batemos um papo com Victor, integrante do Iconili. Se liga!:

Boca Fechada: Contem um pouco ha história de vocês. Como formaram a banda, como se conheceram, de onde vieram, etc.
Victor: A banda foi formada por Gustavo Cunha (guitarra e flauta) e André Orandi (teclado e sax alto) em uma noite na boemia de Diamantina, mais ou menos em 2007. Depois disso foi um processo aglutinante, alguns se conheceram por internet, outros através de amigos, alguns saíram outros entraram e hoje temos essa formação de 11 integrantes. A maioria dos integrantes vieram do interior de minas gerais, Serro, Itajubá, Diamantina, etc…outros são de Belo Horizonte.

BF: Tupi Novo Mundo é o primeiro trabalho de vocês, certo? Como foi o trabalho de composição e produção pra chegar nessas ideias de timbres e ritmos?
VTupi Novo Mundo é nosso segundo trabalho. O primeiro trabalho é um disco homônimo da banda lançado pelo Serrassônica. O processo de composição desse segundo trabalho foi interessante por se adaptar bem a essa entrada e saída de integrantes, as músicas já existiam como um embrião desde 2011. Com a entrada de cada integrante o trabalho ficou mais rico e absorveu bem as idéias de cada um, até o último momento o EP foi se transformando e durante o processo final de gravação a banda ganhou mais dois novos integrantes, Willian Rosa (baixo) e Lucas Freitas (sax barítono) e mesmo assim as músicas ganharam novos arranjos. O processo de produção foi grande parte guiado por toda banda, antes de entrar em estúdio trabalhamos algumas semanas lapidando as músicas. Gustavo e eu pesquisamos bastante sobre os timbres que gostaríamos no disco, procuramos algo com calor, que soasse mais velho e engordurado, que tem a ver com questão conceitual do disco de buscar origem. Uma das grandes qualidades de Minas Gerais é a amizade das pessoas e conexão entre elas, por isso conhecemos Thiago Correa e Henrique Matheus do Transmissor através de um amigo designer: Yannick Falisse que os indicou pra fazer o trabalho. Os dois tiveram grande importância no processo de produção e abraçaram o projeto com alma, eles potencializaram tudo aquilo que Gustavo e eu pesquisamos sobre timbres. A gravação foi bem extensa, por consequência acredito eu da entrada de novos integrantes e alguns shows inesperados, contamos também com a participação do trombonista João Gabriel Machala que trouxe um timbre interessante pro trabalho.

Iconili

BF: Há várias bandas de estilo próximo ao de vocês surgindo no Brasil nesses ultimos tempos: Bixiga 70, Abayomi Orchestra, etc. Veem isso com uma cena de artistas e bandas que tem a música africana como elemento principal?
V: Apesar da gente ser colocado no mesmo barco existem grandes diferenças nos nossos trabalhos. Não vejo como uma cena, acho que isso não depende só do âmbito musical e implica algo muito maior, mas existe uma grande vantagem em nos colocar juntos, que inclusive foi uma coisa que o Maurício Fleury (tecladista e guitarrista do Bixiga 70) me disse quando tocamos no mesmo festival no Circo Voador no RJ. Ele disse que através disso nós acabamos nos aproximando e isso é muito bom. No dia do show no Circo Voador subiu todo mundo no palco durante o show do Bixiga; tinha integrantes da Abayomi, Morbo y Mambo (Argentina), Tigre Dente de Sabre, Feijão Coletivo, ICONILI e até o Bnegão apareceu. Foi lindo! rolou um clima de amizade muito bacana, conversas e convites no backstage, e continuamos em contato. A gente acaba se aproximando, se conhecendo e contribui pra enriquecer muito cada um como pessoa, profissional, etc.

BF: Em Belo Horizonte, tem aparecido vários Ûtimos trabalhos dentro e fora da música instrumental: Dibigode, Constantina, A Fase Rosa, etc. Vocês tem contato com essas bandas? Que impressão tem desse momento da música mineira?
V: Belo Horizonte não tem o olhar que merece na minha opinião. O Constantina por exemplo, é uma banda que está completando 10 anos e tem uma história repleta de trabalhos interessantes e diversas vezes é apontada como algo recente e sem história. Os holofotes ainda apontam pro Rio e São Paulo, Pernambuco acaba encontrando São Paulo. Ao mesmo tempo sinto que a coisa é mais diluída na internet, o que é bom pra todo mundo. Mas o momento que a música independente vive em Minas é muito rico, temos grandes músicos, compositores, ótimas bandas e clima de parceria muito grande. Existe talvez um problema de organização e produção perante a um mercado, falta produtores interessados, que tenham experiência com o setor, além de tudo ambiciosos com o mercado dos artistas independentes. Temos contatos com várias bandas e tudo vem muito pela amizade, André já gravou com Pequena Morte, eu já gravei com Lise, Dead Lovers, Twisted Hearts, Coletivo Dinamite, já fiz shows com Constantina e atualmente toco também no Fusile, Nara toca com o Frito Na Hora, Rafa Nunes com ZimunWesley já tocou na Maitê, uma banda que passaram integrantes do Pequena Morte e Graveola. Nosso recordista de participações é Henrique Staino que seria mais fácil dizer qual das bandas ele não tem algum contato, mas vale citar alguns nomes que ele tem contato, Graveola e o Lixo PolifônicoDLTH, Dibigode, Pequena Morte, Fusile, Electrophone, Desorquestra, Câmera e por aí vai. Acho que esse clima de união vem do momento que Belo Horizonte vive no setor cutural, político e social. As pessoas se aproximaram muito nos últimos anos, em virtude de uma prefeitura péssima e tudo começou a se aglutinar, blocos de carnaval, praia da estação, artistas, grupos de teatro, Djs, mobilizações urbanas, shows, festivais, novas casas de show e bandas. Eu vejo a praia da estação como uma brasa pra todo esse fogo, questionando o uso do espaço público, das verbas de investimento em cultura, tudo vem como um efeito dominó, uma força se transfere pra outro corpo e novas relações são formadas. Essa geração em Belo Horizonte é muito otimista, feliz e ativa. Isso tudo é essencial pra música em minas, é preciso prestar atenção na nossa prefeitura, na construção da nossa cidade, do nosso redor, prestar atenção em casos como Dandara e Zilah Spósito. Música e arte não existem sozinhas, as pessoas não existem sozinhas, isso tudo faz parte do nosso tempo e não dá pra ignorar.

BF: Quais são, dentro ou não da música, as maiores influências e referências pra vocês?
V:Se eu citar nomes vou entrar numa resposta muito extensa, mas no geral a cultura Brasileira, Africana e Latino-Americana.

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