Da capo!

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Mais um início; nascimento de outro projeto.

Junto com alguns amigos – sempre eles! – inauguro as atividades do recém batizado “Boca Fechada”. A idéia inicial – grosso modo – é um blog sobre música instrumental, com downloads e informações; a partir de práticas e debates esperamos ir esclarecendo este conceito (inclusive pra nós mesmos) que não é tão simples como pode parecer à primeira vista.

Na postagem seguinte disponibilizo o primeiro disco para download (todos com link no Rapidshare), inaugurando de fato o Boca. A guisa de introdução subo um texto de meu companheiro Andredeva; anotações que nasceram e foram lapidadas após nossas primeiras conversas acerca do projeto.

Quando Djalma me propôs a participação em um blog sobre música instrumental uma de minhas primeiras perguntas foi “Um quarteto de trompetes tocando as mesmas notas por vários compassos conta como música instrumental?”e a resposta foi “Sim, do mesmo modo que as peças do Villa-Lobos contam”. Ora, a pergunta pode parecer tola, mas cumpria bem o seu papel de avaliar qual o conceito de música instrumental em voga no blog. Pra ser específico, tinha em mente a peça “The Second Dream of The High-Tension Line Stepdown Transformer” de LaMonte Young, provavelmente a maior (em extensão e significado) peça drone do minimalismo, uma peça que beira a abstração total. Em jogo, temos pelo menos duas questões importantes: a da chamada música erudita e a da chamada música abstrata. Ainda sem entrar na crítica discussão a respeito do conceito de música erudita, as afirmações “eu gosto de música erudita” e “eu gosto de música instrumental” tem, usual e literalmente, sentidos diferentes. Literalmente, música instrumental inclui a maior parte da música erudita. Com exceção talvez de operas, cantatas, lieds e coisas do gênero, a música erudita é executada por instrumentos sem participação da voz humana. Aqui temos uma distinção importante: a voz, do ponto de vista musical, é, ou pode ser, [utilizada como] um instrumento.

Enquanto definição, o que ‘musica instrumental’ define? A pergunta pode ser também entendida como ‘a que outro conceito ela se opõe?’. Do mesmo modo que a música erudita se opõe a música popular (e, mais uma vez, estamos sendo simplistas, sem pretender dar a uma questão tão controversa uma resposta definitiva), aparentemente, a musica instrumental se opõe ao que poderíamos chamar de ‘canção vocal’ ou ‘canção lírica’ (para distingui-la do conceito de ‘canção instrumental’), onde há um discurso verbal sendo veiculado através da música. Abrem-se, então, varias questões. A primeira delas é quais são os critérios que devem ser usados para distinguir quando o uso da voz é instrumental ou verbal. Outra ainda é a posição de posição de músicas de teor predominantemente instrumental onde ainda existe o uso verbal da voz, como, por exemplo, peças instrumentais com poesias recitadas durante sua execução.

Em geral, pode haver certa estranheza no uso do termo ‘musica erudita’ para designar a música folclórica ou quanto a gêneros muito específicos, onde o caráter instrumental se torna difuso, isto é, quando a presença de um ‘discurso instrumental’ (especialmente de um discurso melódico) ou a idéia de movimento se torna questionável, como no caso das várias manifestações rotuladas como música experimental e em gêneros como a música ambiente, a música abstrata e a música concreta. Isso também levanta a questão dos aparatos eletrônicos, isto é, se para fins de instrumentalidade, estes contam como instrumentos, tanto no uso concreto de samples e tape-loops, quanto no uso melódico de seqüenciadores e osciladores. Se assim for, passamos a ter os mais diversos gêneros de música eletrônica (incluindo o techno o psy-trance) como gêneros de música instrumental. Pode-se ter a impressão de que o nome ‘música instrumental’ aponta, sobretudo, para um quinhão não-cantado daquilo que podemos chamar de música pop.

Entretanto, se a música instrumental se opõe exclusivamente a canção lírica, nada mais oposto à forma da canção do que a música abstrata e, mais do que isso, o interesse se torna ainda maior nos casos-limite, onde popular e erudito, acústico, elétrico e eletrônico, concreto e abstrato, se confundem.”

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